Crítica semanal Mayã Fernandes

A liberdade é azul, o modernismo é vermelho

Em meados de novembro o projeto arquitetônico de Brasília foi ameaçado pela instalação de uma réplica da estátua da liberdade norte-americana de 35 metros, símbolo de uma famosa loja de departamentos, de tremenda cafonice opulenta. Afronta ao projeto arquitetônico da cidade, a estátua destoa da estética moderna de Brasília.

Considerando o apoio da loja ao presidente Jair Bolsonaro e os vídeos polêmicos em que o dono da rede coagia seus funcionários à votarem no candidato, a recente abertura da loja mostrou as ambições do empresário. Em sua expansão, a filial inaugurada em Brasília simboliza o crescimento lucrativo de grandes redes, que se declaram abertamente apoiadoras de práticas ilegais, como o caixa 2 para campanhas políticas.

A loja de departamentos possui uma filial há alguns quilômetros da capital, na cidade de Valparaíso (GO), onde conseguiu instalar a estátua de 35 metros, tamanho padrão da rede. No caso de Brasília, a rede de departamentos solicitou à administração uma licença para engenho publicitário. Em ocasião, a administração negou a instalação porque o projeto ultrapassa a altura limite de 12 metros, previstos no Decreto nº 29.413/2008. Além disso, a administração encaminhou uma consulta ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – (Iphan) sobre a decisão. Em pronunciamento, o Iphan concordou com a decisão do GDF. Por mais que o local da instalação não esteja incluso na poligonal de tombamento, a estátua da liberdade é dissonante de qualquer outra publicidade que existe ao redor.

Em um momento de rara lucidez em Brasília, a instalação da estátua foi negada em todas as instâncias. Entendo que por mais que o impasse tenha sido jurídico, dizer não a uma empreitada irregular de uma empresa polêmica Brasília é potentemente simbólico,

Brasília é uma cidade modernista, guardando em si algo de autêntico. Aqui, a liberdade é outra: nos vem em forma de esperança por dias melhores.

*Fotografia de MICHAEL MELO/METRÓPOLES.

 

maya

 

MAYÃ FERNANDES é formada em Filosofia pela UnB e atualmente é mestranda em Metafísica pela mesma instituição. É pesquisadora da Cátedra UNESCO Archai: Origens do pensamento Ocidental e editora da PHAINE: Revista de Estudos Sobre Antiguidade. Estuda a teoria do belo na antiguidade e escreve crítica de arte no site Linhas de fuga.

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