Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Corpo é conhecimento. Queremos conhecer?  

Assumindo diferentes valores ao longo de diferentes épocas, a obra de arte exige uma constante readequação no seu modo de fruição. Historicamente, diante de manifestações culturais em geral, espera-se do público uma atitude contemplativa. No caso da televisão e internet, o envolvimento independe até mesmo da presença física do indivíduo num lugar e tempo determinados. No âmbito das exposições e dos museus, de modo geral, essa mesma ideia de contemplação se encontra estabelecida, fazendo com que o público assuma certo distanciamento e um comportamento normatizado diante das obras. Esse comportamento, reverbera nas regras de conduta dos espaços museológicos: “não toque”, “não corra”, “silêncio”.

Na arte contemporânea, porém, a relação sujeito/obra amplia seus limites. Ou melhor, o cartesianismo objeto-sujeito está, em muitos casos, superado. Isso resulta, entre outros fatores, da ampliação das categorias que tradicionalmente regiam a produção artística, de novas possibilidades em termos de procedimentos, materiais e meios de expressão e das interfaces estabelecidas com outras áreas de conhecimento. Assim, parte significativa da produção artística atual propõe experimentar as obras por outros meios que não apenas a partir da visualidade. Mas experimentar e vivenciar são dimensões da recepção que advém de um exercício ainda não consolidado pelo grande público.

O atual regime estético continua a privilegiar a visualidade sobre outras experiências corporais do sensório, considerando o que é visto como a base do conhecimento e da própria realidade. No entanto, na prática contemporânea, devemos invocar uma compreensão mais ampla dos sistemas de representação e atentar para as modalidades críticas e artísticas que podem ampliar a experiência visual.

É importante considerar que sentir é também uma forma de conhecimento: o modo como o corpo percebe e reage, isto é, como se relaciona com o mundo. No entanto, esse tipo de conhecimento só é possível aos que se dispõe a experimentar. Em outras palavras, não há meios de assimilá-lo sem vivenciar a própria experiência sensível. Nas obras de arte que convidam a uma relação sensorial e corporal, o fator “disponibilidade” é imprescindível para se explorarem as potencialidades que a experiência receptiva pode oferecer. Porém, até que ponto estamos dispostos, disponíveis, preparados, educados para tal?

ludmilla

 

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

 

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