Crítica semanal Daniele Machado

Quando foi que nos esquecemos da luta de classes?

O último texto publicado nesta coluna abordei a importância de não esquecermos que a roda da História segue girando e vislumbrei possibilidades que podem acontecer em alguns anos caso não nos organizemos para enfrentar os rumos que o país como um todo tem tomado. Os dados continuarão rolando e podem estagnar em uma direções diversas, mas que encerrarão de qualquer forma os mínimos direitos conseguidos até hoje na história do que chamamos de Brasil.

Nesse último texto passei por uma questão que retomo aqui. O fim da década de 1980 coincidiu com o término da guerra fria no mundo e da ditadura no Brasil. As polaridades entre esquerda e direita, no mundo terminou com a direita vencendo e no Brasil com a esquerda vencendo. Com o fim das polaridades tivemos uma difusão de reivindicações.

Depois de 2013, o ódio contra Partido dos Trabalhadores, que havia deixado de ser de esquerda já há bastante tempo, com os escândalos midiáticos seletivos de corrupção, foi estendido a qualquer um que verificasse as incoerências tanto na cobertura midiática, como nos processos nos poderes legislativo e judiciário, além de qualquer um que defendesse os direitos humanos.

Foi também em 2013, que pessoas que estavam nas ruas lutando por seus direitos há pelo menos duas décadas, constataram um fato, com surpresa: não havia, nas jornadas de junho, uma faixa, lista de reivindicações ou líderes que pudessem negociar as exigências com o governo. Havia diversas faixas e cartazes, pautas múltiplas e nenhuma liderança. Não havia nada a negociar diretamente, mas a gritar e fazer ouvir.

Esses dois – o ódio ao PT e a pluralidade de 2013 – foram dois movimentos seguiram como dois movimentos de naturezas distintas a partir de então. A direita, reconstruiu a polaridade. A esquerda não percebeu ou, pelo menos, não reagiu. Porque o que houve foi um aumento ainda maior de pautas que parece ter feito esquecer aquilo que nos une. O que pode haver em comum entre indivíduos tão diferentes. Tanto para a esquerda organizada e, ainda mais, para todos os que não fazem parte do 1% que concentra as riquezas desse país.

Mas, o que é mesmo que nos une? Parece que no momento em que foi possível reclamar questões que até então não havia espaço nem de escuta, nem de voz, nem de existência, começou um nível de abstração experimental, onde as regras de comportamento mudam a cada momento, o que era o correto até mês passado se torna ofensivo e, nesse dialética impossível de acompanhar, aquilo que nos une parece nem existir mais. Os 99% se dividiram em muitas dezenas. E o espaço de protesto virou contra nós mesmos. De repente fome, analfabetismo e ausência de luz, água e saneamento básico saiu das pautas da esquerda. O gesto de quebrar cabeças para tentar entender o que está acontecendo desde o fim de outubro, talvez deva passar por essas perguntas. Se não nos entendermos como classe construída de diversos, mas ainda assim como unidade terminaremos de sucumbir por nós mesmos.

 

dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação O método destrutivo e as artes construtivas latino-americanas, onde investiga relações de memória, trauma e arte no deslocamento da materialidade no relevo da cidade do Rio de Janeiro, a partir de destruições, em especial, incêndio de 1978 no MAM-RJ. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

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