Camila Vieira Crítica semanal

Instrínseco

Das obras dispostas na mostra PEGA II, atualmente em exposição no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, selecionei Intrínseco, 2018, como mote para o texto reflexivo deste sábado. O trabalho, que é resultado de um autoexame poético que Crislaine Tavares realizou, – ao ser confrontada com a necessidade de tratar esteticamente os questionamentos, dúvidas, emoções e teorias que a instigam, enquanto estudante de Arte -, não tem na sua forma, ou não transmite diretamente, através dela, uma narrativa que contextualiza essa produção no meio social do qual Crislaine faz parte. Necessariamente, a obra deve ser analisada dentro de seu caráter pictórico e material, contudo, se a considerarmos coletivamente, por meio de uma narrativa curatorial, o trabalho pode se encaixar enquanto ponto de ruptura, assumindo diálogos que estão além da reflexão pessoal que a artista propõe, através dos espelhos. O trabalho é feito de duas fitas VHS, acopladas uma à outra. Ambas compartilham o mesmo tom de rosa, exibindo o contraste pictórico entre os, naturalmente cinza, rolos de fita e o plástico preto, que envolve os dispositivos interiores dessa mídia já inutilizada, por causa do avanço tecnológico.

Não seria de mau tom usar alguma referência que evoque Walter Benjamin e seu excelente texto “ A obra de arte a era de sua reprodutibilidade técnica”, contudo, a obra de Crislaine Tavares já expõe dois conceitos essenciais a todo o estudante de Artes Visuais ou História da Arte: a massificação e disfuncionalidade. Enquanto mídia criada a fim da difusão de conteúdos cinematográficos ou, melhor dizendo, audiovisuais, a fita VHS provocou uma revolução tecnológica que tornou o vinil obsoleto e possibilitou o acesso individual aos filmes, disponíveis, até então, majoritariamente na televisão e  nas salas de cinema. Através da tecnologia VHS, aparelhos toca-fita puderam ser acoplados aos carros, aos aparelhos de som e aos vídeo-cassetes, de modo que uma mídia tocada no rádio, ou exibida na tevê, pudesse ser consumida por meio da gravação e da reprodução de conteúdo. Explodiram nos bairros as Vídeo-Locadoras e, por meio do empréstimo e da compra dessa tecnologia relativamente barata, o consumo de obras feitas para o entretenimento aumentou o alcance da população à cultura de massa e, consequentemente, hegemônica.

Com o surgimento do CD e DVD, contudo, o VHS caiu em desuso, por uma obsolescência típica do capitalismo, motivo pelo qual um adolescente hoje não reconheceria o uso desse objeto, o que nos leva à disfuncionalidade. Consideramos o franco-americano, Marcel Duchamp, como pai dos ready-made, objetos produzidos para consumo,  porém retirados de sua funcionalidade para serem expostos como obras de arte. Duchamp asseverou que não era tarefa da crítica se apegar apenas a aspectos formais  para determinar o valor de uma obra de arte, devido ao risco de esvaziamento subjetivo desta produção em prol de um formalismo estético. Ao eleger A fonte, 1917, como uma obra digna de  exposição, e, a contragosto dos jurados que selecionaram os trabalhos artísticos para a exposição do qual este urinol reformulado fez parte, Duchamp revolucionou os moldes pelos quais é possível determinar o caráter artístico de uma obra, pois o desvio do uso e a ruptura narrativa abriram portas à arte pós-moderna, aproximadamente 60 anos depois. A fita VHS, mídia já desfuncionalizada pelo avanço tecnológico, portanto, recebe uma nova funcionalidade, tornando-se matéria de uma obra de arte.

Ao acoplar espelhos na parte frontal do objeto, Crislaine provavelmente procura refletir-se nesta obra feita segundo os moldes acadêmicos que todos aprendemos por meio das teorias, contudo, o tom rosa, a exposição das entranhas do objeto e a fita, que extrapola o invólucro plástico da peça, são escolhas da artista, consequentemente, únicas. Por ser um objeto único, vindo de uma mídia largamente fabricada e altamente reproduzida, há uma série de analogias que podemos traçar entre o modo de produção e a economia que ronda a transformações de insumos finitos da natureza, como o petróleo, em poluentes agressivos ao meio-ambiente, plástico, para atender a um mercado consumidor de necessidades criadas. Podemos, ainda que filosoficamente, conjecturar que, apesar de mais de 8 bilhões de humanos no planeta, somos seres únicos, como estas duas fitas, transformadas em uma obra de arte, surgidas de uma produção em massa de objetos idênticos. De qualquer maneira, a análise da obra pertence, por si mesma, a um caráter intrínseco. Depende de quem a lê.

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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