Carolina Lopes Crítica semanal

Sem cabimento

Abre-se a porta. Ao entrar, a anfitriã canta: “E que? Negra! Sim! Negra! Eu sou! Negra! Negra eu sou! Negra, negra, negra, negra!”

Victoria Santa Cruz, que nos recebe, performa “Me gritaron negra”. Recebendo à porta de Mulheres radicais: arte latino-americana, 1960 – 1985, dá o tom do assunto com um recorte, ao qual o feminismo negro alcançou: camada extrema de resistência. mulher. latino-americana. negra.

Uma virada para o lado do quintal, se vê. Aqueles corpos marcados pela cultura, que já os impôs à condição do ambiente doméstico, aos padrões de beleza e feminilidade, aos serviços de procriação e prazer; de situações fantásticas, insólitas, renascem. Desconfiguram. Desestabelecem as formas. Celeida Tostes, em Passagem, quase literalmente volta ao ventre da terra. Não há mais história, não há cultura. Não há fora, silêncio. Dentro, seus próprios sons. E então ela rompe. Silvia Gruner, em Areia, gira e gira e gira com seu corpo pela areia. Desenrola as possibilidades de um novo corpo, e depois, resolve. Do interior de seus corpos, sacodem, rebentam. Uma nova natureza para o existir dos seus e destes corpos.

Celeida Tostes, em Passagem

Chegamos ao banheiro. São pelos, pelo chão. Uma mirada no espelho, e vemos Ana Mendieta, barbada, com bigodes, inclusive. Em Transplante de pêlo facial, transplanta para seu rosto, pêlos, do rosto do amigo. Goza do poder da masculinidade, como se dissesse: pronto, agora posso tudo, certo? Mais uma olhada em volta, e em torno do vaso sanitário não há urina. O pênis agora, está pendurado no rosto de Maris Bustamante. É uma máscara cômica: grudado no óculos, como um narigão. O pênis como instrumento de trabalho, reduz o falo ao mínimo, ironizando-o até à ridícula diferença entre gêneros nos ambientes de trabalho, por exemplo. Este novo corpo, se vê e sabe: não há e nem deixa de haver nada em si que o faça frágil, ou inferior.

Passando pela cozinha, pelos sons de copos, pratos, talheres, sentimos a tensão. Aquele lugar está sofrendo um reajuste. Já não há mais papel que se encaixe ali. Ana Victória Jiménez, em Caderno de tarefas, estica o conceito sobre as antigas ‘tarefas do universo feminino’, tanto, a ponto de rasgá-lo. Atravessamos a sala. No sofá, uma conversa entre damas. Na mais fluida conversa fingida: elas encenam respostas a uma antiga pergunta, feita no humor da pergunta de Clemencia Lucena, O que elas fazem enquanto eles trabalham?. Mais à frente, no quarto, está ela, diante do espelho. Leticia Parente, em Preparação, numa encenação absurda. Expõe o absurdo da situação quando real: sobre olhos e boca, fitas adesivas, sobre as quais desenha, com maquiagem, novos olhos e boca. Este corpo novo expõe a fratura de sua história. Agora ele já não se encaixa mais, nem nada se encaixa nele.

               

Corredores, salas. Mais corredores, e salas sem fim. Um caminho labiríntico, complexo. Transbordado de falas, vozes, trabalhos de tão diversas naturezas, linguagens, lugares, tempos, quanto se é possível. A exposição que abarca somente 25 anos de produção de artistas da América Latina, enche salas e mais salas da Pinacoteca de São Paulo. Afirma: sempre houveram mulheres, elas sempre falaram, sempre trabalharam, sempre fizeram, sempre houve e sempre há.

Lá, no que seria o final da casa, buraco. Por explosão, marretadas, bola de concreto, tsunami, furacão, tiros; qualquer limite foi derrubado. Liliana Porter indica a saída. Com Line II, aponta para além das linhas, contornos, curvas, desenhos. Esta casa, estes corpos, que se utilizaram de suas experiências tão íntimas, quanto universais às mulheres, para reajustes, resistências e reinvenções, atenta ao seu tamanho imensurável e diz: não há cabimento. Para este corpo, não há cabimento.

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CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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