Camila Vieira Crítica semanal Crítica semanal - Camila Vieira

Ctrl-A

Ctrl+A, 2018, é uma obra multifacetada. Mesmo que talvez não intencional, a presença de uma composição formal de letras, relacionadas visualmente a um determinado padrão, rememora a pesquisa Verbi-Voco-Visual dos poetas-artistas concretos. Décio Pignatari, Arnaldo Antunes, Augusto de Campos, entre outros, mantinham o registro da língua e a cadência fonética do poema em confluência com a visualidade das letras combinadas em sentenças e estrofes conduzidas pelo olho do artista-narrador.  A obra de Ian Sant’anna não permite a liberdade vocalica de um poema concreto construído visualmente numa tela, contudo, o sentido que se constrói a partir do significado da sigla Ctrl é relativo à realidade tecnológica surgida a partir da invenção do computador. Os atalhos determinam velocidade à edição de textos e de códigos, analogamente à rapidez imediata da comunicação possibilitada pela internet.

O atalho, Ctrl+A, determina que todos os caracteres de uma página sejam selecionados. O detalhe da obra, porém, é que a Letra A não está pictoricamente presente na impressão, que consiste na repetição do atalho, formando outro, o Ctrl +C, a repetição da repetição. A forma pela qual o atalho se repete, é a diminuição. À maneira de um teste de visão, os caracteres diminuem linha-à-linha. Mesmo presente e inevitável em todo o mundo, a tecnologia é assessivel, do ponto de vista da educação e de um nível superior à passividade assegurada aos usuários, pelas empresas de Software e Hardware, a alguns poucos. Até mesmo o acesso à tecnologia é limitado, visto que este acesso não é um direito, mas algo promovido pelo consumo. Para se ter acesso à Internet, por e exemplo, precisamos portar um terminal, seja computador ou um celular, além de um pacote de dados que garanta o acesso, intermediado pelas operadoras de telefonia, para tento, porém, é preciso ter dinheiro.

Se a situação economica do indivíduo não o possibilitar o consumo, muito provavelmente este sujeito estará obesoleto ao mercado de trabalho e, consequentemente, ao acesso monetário que a sociedade determina. Além disso, a repetição do estrato social dentro da estrutura familiar é a regra da sociedade capitalista, na qual poucos detém muita riqueza , enquanto que a maioria detém pouquíssima, de modo a ficar presa numa lógica de venda de trabalho para a pura sobrevivência. Assim como nas camadas inferiores, a manutenção da riqueza é natural aos herdeiros do capital, bem nascidos e educados, com todas as oportunidades em mãos. A repetição é, portanto, juntamente à linguagem tecnológica, o mote que conduz a lógica presente no trabalho, ora exposto no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, numa mostra feita por estudantes, para estudantes, a fim de furar a bolha criada pela lógica social reproduzida pela Academia e pelo Mercado de Arte e evidenciar a obra de artistas que, assim como Ian, tratam a Arte a partir não somente de um dado empírico, mas através da dialogia entre o atual e o perene, sendo o atual a tecnologia e o perene, a desigualdade

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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