Crítica semanal Gabriela Manfredini

O FUTURO DAS OCUPAÇÕES NO BRASIL

Alguns fatos ocorridos neste ano, trouxeram à tona, discussões sobre as ocupações. Primeiro, em maio, o desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida próximo ao largo do Paissandu; depois o líder do MTST, Guilherme Boulos que veio a mídia quando se tornou candidato à presidência pelo PSOL e em novembro o incêndio na Ocupação Prestes Maia.

“Okupa” é um termo anarquista, derivado da palavra ocupação. O termo faz referência especificamente ao ato de ocupar um espaço ou construção, abandonada ou desabitada, sem permissão de seus proprietários legais, não para transformá-lo numa propriedade privada, a ser alugada ou vendida, mas com o objetivo de criar uma esfera de sociabilidade e vivência libertária. Para os contrários ao movimento, tais ocupações nada mais são que invasões de propriedade. Boulos, que foi rechaçado por ser coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto se defende: “Para aqueles que insistem que o MTST “toma a casa das pessoas”, um esclarecimento: o movimento só ocupa imóveis abandonados e em situação ilegal. Quem toma a casa das pessoas no Brasil são os bancos. Foram 70 mil nos últimos 5 anos. Não confundam!”

Ao longo do processo brasileiro de urbanização os grupos sociais pobres foram expulsos das regiões centrais das cidades, sendo obrigados a construírem suas habitações nas periferias. Isso aconteceu primeiramente na cidade do Rio de Janeiro, em 1906, quando a saída encontrada pelos expulsos foi reconstruir suas casas nos morros dando origem ao que hoje conhecemos como favelas. As cidades também foram muradas, vigiadas e individualizadas; processo que refletiu na sociedade e nas relações humanas. Atualmente, é difícil pensar numa maneira de consertar estes danos, uma vez que as políticas públicas são feitas conforme os interesses dos políticos, grandes empreiteiras e empresas. Portanto, as alternativas que fogem do meio capitalista têm de vir de movimentos sociais.

Segundo a arquiteta e urbanista Raquel Rolnik, professora da USP, as ocupações urbanas se expandiram muito no Brasil entre 2003 e 2013, devido ao “boom” no setor imobiliário. “Houve uma explosão sem precedentes no preço da terra e dos imóveis e, embora tenha havido também elevação de renda de setores menos favorecidos, o aumento no preço da terra foi muito maior”, analisa. Só na cidade de São Paulo existem 206 ocupações onde moram 45 mil famílias. O país tem, pelo menos, 6,9 milhões de famílias sem casa para morar, mas também cerca de 6,05 milhões de imóveis desocupados há décadas.

As ocupações também têm tido papel importante no fomento das artes na cidade de São Paulo. Podemos enfatizar o Ouvidor 63, maior ocupação cultural da América Latina, atualmente com 100 artistas residentes que produz diferentes tipos atividades diariamente, exposições e um brechó. A Casa Amarela e a Ocupação Nove de Julho também são de grande importância para a difusão de arte e cultura no centro da cidade. Na zona leste, destaque para a Ocupação Cultural Ermelino Matarazzo, uma das únicas da região, que conta com saraus, exibição de filmes, aulas e oficinas, mas que vem sendo ameaçada desde o início da gestão Dória na cidade. O Parque Augusta e o Parque do Bixiga também vieram a público durante este ano. No primeiro, uma luta com as construtoras Cyrela e Setin proprietárias do terreno que é um dos únicos locais remanescentes de mata atlântica na região central de São Paulo. No segundo, a construção de três Torres pelo grupo Silvio Santos num terreno ao lado do Teatro Oficina, o qual teve papel de liderança nas ações referentes a criação do Parque e das manifestações.

Com o novo governo que iniciará em 2019, ocupações poderão ter seus dias contados, pois grupos como o MTST e MST estão na mira para serem criminalizados. Surge então um questionamento sobre a perenidade destes movimentos. Eles trazem uma visão política de mundo a partir do questionamento crítico que leva à conscientização para questões cotidianas de direito a cidade, cultura, arte, transporte, moradia, natureza, o direito ao prazer e à liberdade de expressão. Não é necessário levantar nenhum tipo de bandeira partidária para se praticar política através da cultura, e é também por esse motivo que há risco em sua continuidade. Portanto, as ocupações não deveriam ser um assunto da direita contra a esquerda ou de delinquentes, mas sim de direitos humanos, auxílio e expansão de movimentos artísticos. Inclusive deveriam ser ocupados de forma criativa com mais frequência.

 

gabriela

 

GABRIELA MANFREDINI é uma artista emergente, designer e ilustradora residente em São Paulo. Interessa-se pelo universo artístico desde criança. Seu trabalho é principalmente envolvido por temas como conexão, encontros e empatia.

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