Crítica semanal Daniele Machado

Arte Contemporânea contemporânea – Texto 2

Na primeira parte desse texto, publicada na semana passada, citei algumas das tendências da arte contemporânea e desafiei os leitores a identificarem qual artista e/ou teórico realizaria cada pesquisa. Não me referia a nenhuma pessoa em específico, mas várias poderiam ser identificadas com algumas das tais tendências. Há dois memes abaixo que tensionam, levando ao ridículo, a produção artística contemporânea, que é um senso comum entre a sociedade como um todo, considerando, inclusive, a maioria que nunca frequentou ou que frequenta raramente espaços institucionais de arte – sendo eles públicos, privados, independentes, na rua ou entre paredes – onde, majoritariamente a arte tem sua circulação.

O primeiro meme apresenta 33 opções de termos, divididas em 3 categorias, de forma que é assustador que realmente combinem em todas as possibilidades aos olhos de profissionais e estudantes de arte e que não fazem o menor sentido para quem é leigo. Esse pode ter as reações previstas de reverenciar os especialistas que legitimam todo o aparato de funcionamento da arte e de acatar a qualquer coisa que digam os especialistas, já que não seria capaz de entender.

No episódio marcante da expulsão de Hélio Oiticica e seu amigos passistas da Mangueira na ocasião da exposição Opinião 65, um fato chama a atenção. Um dos argumentos utilizados para a proibição é de que era exigido o uso de trajes formais – paletó e gravata – para entrar no museu. Era o ano de 1965 e cinco décadas depois é possível constatar a contradição entre as instituições de arte que tentam cada vez mais mediar e criar experiências entre público e obras de arte e, paralelamente, esse público que se encontra cada vez mais estúpido diante de tão rebuscadas exigências de intelecto para tal encontro.

O artista cada vez fechado em seu próprio universo, salvo as exceções, produz trabalhos misteriosos, os trabalhos são agrupados em curadorias tão misteriosas quanto e cabe à equipe de arte-educação resolver o mistério, dentro de todas as demandas exaustivas de número e salvar que extratos menos elitistas da população possa acessar e não sair com o sentimento de “eu não entendi nada!”. E há um requinte porque, sabemos, quanto mais difícil, quanto mais misteriosa, quanto menos didática e identificação, mais chique e intelectual é esse e aquele artista, curador… Inclusive é um verdadeiro horror, digno de caras estupefatas de nojo, falar sobre didática e identificação nesses círculos. Arte contemporânea não dá pra entender se alguém não explicar…

O segundo meme traz uma questão também importante de ser analisada. A história da arte entre suas correntes historiográficas, tem a iconológica que considera a possibilidade da arte representar a identidade de um povo – entre todas as polêmicas definições de povo. É risível que o meme questione então que – constatada essa ser uma das possibilidades de análise da arte – se a arte contemporânea é a arte que representa a sociedade atual, logo, ninguém sabe o que está acontecendo.

E não me parece ser tão impressa essa constatação. Parece que houve um retorno do artista para se trancafiar no ateliê/bolha e só se fala do que está lá dentro. Se esqueceu que, exigir da população e dos políticos que haja mais investimento público nas artes, implica em transparência dos parcos recursos hoje disponíveis e da estrutura de funcionamento. E se esqueceu, especialmente, quem é essa população. Parte que vive na miséria, que é analfabeta ou analfabeta funcional, que não tem sinal de telefone ou internet onde vive, que não tem saneamento básico, onde todos os questionamentos mais profundos do ser ou das reivindicações mais sérias sobre tudo o que é mais popular nesse meio se tornam pífias quando não se sabe o que comer na próxima semana. Em outra parte, também popular, segue-se reverenciando as primeiras décadas de arte contemporânea no país. Foi tudo de bom que conseguimos produzir, com a exceção de poucos escolhidos. Ninguém sabe o que está acontecendo? Ou se deu ao luxo de não saber?

Ninguém é obrigado a fazer ou algo ou, ao menos, se preocupar com aquilo que não lhe atinge. Ok. Isso também vale para quem reivindica orçamento público para a arte. O conceito, tão importante na arte contemporânea, chegou no mesmo lugar dos atacados formalistas. No fim, para ambos, só quem é inteligente vai entender. Ao ver Choque (2018) de Dora Longo Bahia, me deparei com essas questões. Nenhum dos requintados termos do meme se adequaria.

Arte tem que explicar ou arte é pra qualquer um? Talvez seja por isso que ninguém entenda o motivo de quase qualquer um saber quem é reconhecer os trabalhos de Romero Britto ou das grandes filas formadas na exposição do Ron Mueck em 2014… Boa parte da arte não quer que ela seja pra qualquer um…

 

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Choque (2018) de Dora Longo Bahia

 

Arte Contemporânea contemporânea – Texto 1

Quando foi que nos esquecemos da luta de classes

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DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação O método destrutivo e as artes construtivas latino-americanas, onde investiga relações de memória, trauma e arte no deslocamento da materialidade no relevo da cidade do Rio de Janeiro, a partir de destruições, em especial, incêndio de 1978 no MAM-RJ. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

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