Camila Vieira Crítica semanal

Trilogia do Pai

Uma camiseta serigrafada, um livro amarrado por arames e uma tela são os elementos que compõem Trilogia do Pai, 2018, uma série que expõe, para além da experiência própria de Aline Chagas, toda a problemática envolta sobre a violência urbana, gerada pelo tráfico, e a guerra às drogas, pela ineficiência do Estado. Lata sobre o corpo do meu pai, 2017, é uma obra figurativa que se constrói por elementos abstratos. Na tela, o corpo bidimensional de um homem vestido com farda azul, deitado em diagonal, de modo a ultrapassar os limites da tela e impossibilitar a identificação do sujeito retratado, que, a partir do anonimato, se traduz no corpo do policial metafórico, arquetípico, que retém no seu simulacro todos os corpos vítimas desse genocídio de pessoas periféricas. Sejam elas traficantes, ou não, todas pertencem à mesma classe. No Livro de ocorrências – memórias e apagamentos do meu pai, 2017, está a composição tridimensional de um receptáculo de anotações, de memórias do ofício, encerradas, porém, pelo fino fio de metal que abraça a capa, de modo que as anotações precisam ser recorridas no imaginário de quem une as peças através da narrativa posta, tanto pelos símbolos, quanto pelos elementos factíveis, que são os objetos. O Tiro, 2018, peça fundamental à cena simbólica,  traz à luz o terrível destino que se coloca à nossa frente.

É possível, pelo nome que intitula o conjunto destas três peças, inferir que a obra apresentada por Aline Chagas está diretamente ligada à sua vida pessoal, pois o Título “Pai” não deixa mentir que se trata da intervenção artística sobre uma memória dolorosa `a ela própria, e à tantas outras filhas que foram atingidas, de alguma maneira, pela Guerra sem vencedores promovida pelo Estado Brasileiro, cujo Direito Democrático se encontra longe das violentas trincheiras das favelas e dos subúrbios. Esse depoimento pessoal é o depoimento de tantas outras realidades que conglomeram os nefastos números de homicídios praticados em solo nacional. Para além de uma estatística, o dado concreto diz respeito, apenas, à essas memórias apagadas, que, por vezes, com muita coragem, podem ser trazidas aos olhos despercebidos que quem passeia, às tardes tranquilas, numa exposição no Centro histórico do Rio de Janeiro. A violência, mesmo que por contornos leves, porém, pode estar em todo o lugar, nem que seja por uma metáfora, pincelada de azul.

 

Capa: Lata sobre o corpo do meu pai, 2017; 100x100cm

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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