Carolina Lopes Crítica semanal

O elemento vazio – parte II

 

 

 

 

 

 

PENETRÁVEIS

Visualiza-se apenas os contornos. É no espaço ao qual contém, que manifesta o real interesse do trabalho. Em Penetráveis, de Hélio Oiticica, o corpo ocupa um espaço no vazio, desocupando outro espaço deste mesmo vazio, como num jogo entre vazios intermináveis. Seu penetrável Nada (PN 16), o participante, após entranhar num labirinto completamente preto, cruzar quartos iluminados com uma luz forte, chega a um microfone para falar livremente sobre o tema NADA. O nada como condição de substância ativa, estimulante, ativa e processual do trabalho. Se move, conforme move o participante, simultaneamente.

No vazio como elemento ativo das obras, já mencionado na parte I deste texto, há sobretudo, uma camada de compreensão política do gesto de experimentação do nada. Nas obras de Antonio Manuel, por exemplo, provoca a ativação do NADA como pensamento e como espaço de disputa política. Em sua instalação Fantasma, o participante transpassa a obra, atravessando uma sala com 900 pedaços de carvão pendurados no teto, em diferentes alturas. O toque da matéria ao corpo é possível, até que o participante chega a uma matéria de jornal, em que há uma pessoa com a cabeça completamente coberta por um pano branco. A inscrição do artista: “Uma pessoa real, de carne e osso, cuja imagem foi amplamente divulgada pela mídia, que havia testemunhado um crime e, tendo sua vida ameaçada, desapareceu e perdeu sua identidade, tornando-se assim um verdadeiro fantasma.” A questão do vazio conceitual, perfura os corpos em seus trabalhos. Trata-se de uma existência. Tangeia o vazio epistemológico causado pela ditadura, por exemplo.   

Guy Brett, no texto Ativamente o Vazio, comenta “O vazio na arte brasileira me parece expressar de modo particularmente claro a contradição, o conflito – mas também o convívio íntimo, o desejo intenso – existentes entre o cósmico e o tópico, o filosófico e o político, o metafísico e o material.” É como se este vazio se colocasse como portal, dentro do conceito essencial de sua existência: a pura potência. Ele fica no meio. Um meio do caminho, um meio da ideia, um meio entre interlocutores. Tem a capacidade de direcionar completamente o foco, obscurecendo todo o redor, para o estado potente e livre. Raro estado, torna-se parte, além de base, além de porta. O vazio nestes trabalhos, desnaturaliza o nada. Livra-o dos contornos, e então da complexa rotina que o torna invisível, impensável, inexperiençavel. Este elemento, quando ativo, possibilita o jogo tornando as partes equivalentemente humanas em sua essência. Incluindio a todos em sua potencialidade criadora. Aponta às reflexões, inflexões e dobras, capazes de ocorrer em seu espaço infronteiriço. Elemento fortemente presente na poesia de Manuel de Barros, o vazio e o nada permeiam todo seu pensamento poético, chegando a criar desconstruções e desconstruir criações para dar lugar ao estado embrionário de ser nada. E poder então, ser tudo. Diz: vazios são maiores e até infinitos.

NADA

 

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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