Crítica semanal Mayã Fernandes

A memória da mesóclise

Nesta última semana foi inaugurado o Centro de Memória Michel Temer, em Itu (SP). Segundo o presidenciável, o espaço servirá de apoio à pesquisa. Contendo mais de 76 mil itens, entre documentos de viagens, correspondências e outros documentos de cunho pessoal, Temer acredita que essas informações podem auxiliar os pesquisadores a entender melhor o período em que esteve no poder.

Para entender as motivações de Michel Temer e sua egolatria, é preciso fazer uma retrospectiva de suas exibições públicas.  Dois casos chamam a atenção durante os últimos anos. Nos bastidores do golpe de 2016, Temer expôs intencionalmente seu descontentamento com sua posição no governo de Dilma Rousseff, e citou que se sentia  um vice decorativo:  Verba volant, scripta manent (As palavras voam, os escritos permanecem). A expressão mostra a necessidade do sujeito, deveras acadêmico, em inserir seu nome no rol de situações inusitadas que já aconteceram dentro do congresso. Com o seu uso excessivo de mesóclises, Temer conseguiu a atenção pública e uma xícara de chá com os imortais da ABL. 

Poeta medíocre, o escritor lançou o livro Anônima Intimidade (2012) marcado pelas revelações de seus anseios mais profundos.

Eu

Deificado.

Demonizado.

Decuplicado.

Desfigurado.

Desencantado.

Desanimado.

Desconstruído.

Derruído.

Destruído.

Não consigo realizar uma análise literária acerca de suas poesias, pois tratam-se de anseios psicológicos. Decuplicado foi o seu índice de rejeição. Com o Centro de Memória, Temer está se deificando, buscando a não demonização. Com a carta endereçada à mídia, Temer demonstrou o seu desencanto e desânimo em ser um vice decorativo. Com o golpe, ele nos mostra que não seria destruído facilmente e que acabaria com boa parte das políticas públicas.

Enfim, qualquer pessoa que não tivesse em uma situação de poder não teria metade dos holofotes que Temer conseguiu. Acredito que o comportamento egocêntrico do escritor é um atentado ao bom gosto e aos inúmeros artistas e produtores, que tentam por longos períodos, conseguir um espaço para expor seus trabalhos. Situações como essas demonstram que de algum modo, a arte e a cultura estão à serviço dos herdeiros.

Crédito pela imagem: João Pedro Ribeiro.

 

maya

MAYÃ FERNANDES é formada em Filosofia pela UnB e atualmente é mestranda em Metafísica pela mesma instituição. É pesquisadora da Cátedra UNESCO Archai: Origens do pensamento Ocidental e editora da PHAINE: Revista de Estudos Sobre Antiguidade. Estuda a teoria do belo na antiguidade e escreve crítica de arte no site Linhas de fuga.

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