Crítica semanal Ludimilla Fonseca

O natal pós-impressionista de Gauguin

Quando uma criança nasce hoje em dia, ela é fotografada e filmada em todas as posições, de todos os ângulos, com todos os parentes, o tempo todo. Mas, sem dúvidas, nunca existiu um bebê que tivesse o seu nascimento registrado tantas vezes como o menino Jesus.

A natividade de Cristo é um dos grandes temas na arte Ocidental desde o século IV. As cenas do nascimento de Jesus são assumidamente ilustrativas e incorporam muitos detalhes narrativos, sendo um tema recorrente nas sequências que ilustram tanto as passagens da vida de Cristo, como as da virgem Maria. Assumindo ênfases e simbologias diferentes ao longo dos períodos, do medieval ao renascimento, do barroco ao moderno, encontramos a cena do nascimento representada por inúmeros artistas ao longo da história.

Entre tantas, uma cena de natividade em específico sempre me chamou atenção: Te tamari no atua (que em uma tradução um tanto controversa, seria “O filho de Deus”) pintada por Paul Gauguin em 1896. No primeiro plano da composição, vemos uma jovem polinésia, vestindo um sarongue azul com uma estampa de estrela dourada. Ela está deitada sobre uma cama coberta por uma colcha de amarelo intenso. A jovem descansa, trazendo a mão esquerda sobre o peito e a direita estendida para cima. Aos seus pés, repousa um gato. Ambos parecem dormir.

Te tamari no atua.jpg

No plano de trás da pintura, uma outra mulher está sentada segurando um bebê. Ela aparenta ser mais velha e sua cadeira está logo ao lado da cama. Uma terceira mulher, com roupas escuras e uma flor nos cabelos, está de pé e parece observar a criança recém-nascida. No lado superior direito da tela, em segundo plano, vemos um boi e um burro, indicando que a cena poderia se passar em um estábulo. Certamente, a narrativa teria um caráter mais ordinário se não fossem pelas aureolas que envolvem a cabeça da mulher e a do bebê. Sendo assim, a sugestão da divindade dos personagens nos leva à conclusão de que estamos diante de uma natividade.

Mas por que um tipo “rebelde” como Paul Gauguin teria pintado uma cena de nascimento? A interpretação mais disseminada é a de que a pintura estaria relacionada ao fato de que a companheira taitiana do artista, Pahura (uma adolescente, vale ressaltar), deu à luz em uma data muito próxima ao Natal daquele ano (o bebê, que era uma menina, viveu apenas algumas semanas).

Essa interpretação está de acordo com uma outra afirmação recorrente que é a de que quando Gauguin foi para o Pacífico Sul, ele pintou e desenhou o que viu. Certamente, pessoas locais, paisagens e objetos foram inseridos em seu trabalho. Porém, essa é uma abordagem simplista. Como artista, ele abordava não apenas aquilo que estava diante de seus olhos, mas também o que trazia em sua bagagem. Então, sim: a mãe na cama é presumivelmente inspirada em Pahura. Mas não há registros oficiais que conectem o nascimento da criança com a pintura do quadro.

Gauguin foi para o Taiti pela primeira vez em 1891, retornando após um período na França no final de 1895. Ele construiu para si uma casa na aldeia de Puna’auia. Segundo o historiador George Shackelford, Gauguin compartilhava da ideia (muito em voga na época) de que todas as religiões e mitologias eram essencialmente as mesmas. Em 1897, o pintor escreveu um longo ensaio intitulado “A Igreja Católica e os Tempos Modernos”, no qual afirmava que “Deus pertence aos poetas, ao reino dos sonhos; ele é o símbolo da beleza, beleza em si”. Para o historiador, referências mescladas do sudeste asiático, do cenário polinésio e do cristianismo são típicas de Gauguin, que não por acaso, teve uma educação religiosa desde muito novo.

Inclusive, a natividade não foi o único tema cristão que o pintor abordou. Ele também explorou a última ceia, a agonia no Getsêmani e a queda do homem, entre outros, dos quais vale destacar La Orana Maria (“Ave Maria”) de 1891, que está na coleção do MET em Nova York. Gauguin escolheu justamente um tema cristão para sua primeira grande obra taitiana, antes de começar sua série de pinturas inspirada pelas crenças religiosas da Polinésia. Em uma carta de março de 1892, ele descreveu a cena: “Um anjo de asas amarelas revela Maria e Jesus, ambos taitianos, a duas taitianas que vestem sua nudez com pareôs, um tipo de tecido de algodão com flores preso ao redor de sua cintura. A pintura tem um fundo montanhoso sombrio e árvores floridas”. O título desta obra refere-se às primeiras palavras ditas pelo arcanjo Gabriel à Virgem Maria no momento da Anunciação. E “Ia Orana” é uma saudação habitual no Taiti.

Além da reflexão sobre a religião em si, tudo indica que o Natal foi uma época importante para Gauguin, pois estava ligada ao nascimento de sua filha Aline e à automutilação de Vincent van Gogh, que marcou o final do período durante o qual os dois pintores viveram em Arles.

Mas em relação a Te tamari no atua, não é apenas o inusitado de uma “natividade taitiana” que impregna, mas sobretudo, a ausência de homens na cena: estão presentes, além do bebê, apenas mulheres e animais. Vemos uma mãe que não está vigilante e vestida, mas que descansa na presença de outras mulheres que lhe auxiliam. Há algo de divino na maneira natural como filhos são trazidos ao mundo em um contexto não eurocêntrico. Uma sugestão de que antes do salvador, existe apenas o menino. E antes do menino, existe a(s) mulher(es).

Gauguin não foge ao perfil misógino e eurocêntrico da grande maioria dos pintores de seu período (e antes e depois dele também). Mas acredito que sua cena de natividade continua intrigando por se situar mais no âmbito da sugestão do que no da doutrinação.

La orana maria.jpg

ludmilla

 

Ludimilla Fonseca é jornalista pela UFJF (MG) e mestranda em História e Crítica da Arte na UFRJ. Curadora e produtora independente, escreve regularmente para as revistas Desvio, Híbrida e O Fermento”.

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