Camila Vieira Crítica semanal

Compro o seu tempo

Diferentemente das cidades do interior há, nas grandes metrópoles, lugares feitos para a passagem. Se a lógica do trabalhador é o deslocamento a fim de que se chegue ao trabalho, os terminais correspondem a um intermediário entre sua casa e o edifício ou ponto no qual ele deve estar, em determinada hora do dia, para iniciar a labuta. Lugares de passagem, num país pauperizado, como o Brasil, são os lugares preferidos para o comércio informal dos ambulantes e o exercício de caridade aos pedintes, que se acumulam nas calçadas, abaixo das marquises, um abrigo temporário contra o sol castigante ou uma chuva torrencial. Se o objetivo é garantir o pão diário, não há lugar mais conveniente de se encontrar trabalhadores indispostos à conversa do que um terminal, pois, passa-se por este lugar com o objetivo de atravessá-lo, ao modo de um portal, que carrega o trabalhador à outra margem da cidade, ou seu coração pulsante, que escoa pessoas de todas as feições por seus corredores e pátios espaçosos.

Foi num desses locais de passagem,o maior do Rio de Janeiro, que Carla Santana se fixou, com um cartaz, aguardando trabalhadores interessados em vender uma hora de seu tempo para experimentar o ócio remunerado. Compro o seu tempo, 2018, é uma obra quase que jornalística e é didática por si só. A média do salário do trabalhador brasileiro, segundo o DIEESE, corresponde a menos de 5 reais por hora. Talvez não seja possível notar essa pauperização devido ao salário mensal de cerca de 900 reais por mês, no entanto, se o trabalhador quebra a lógica da correria, devidamente pago para tal, a experiência de uma hora de aguardo, vendo as pessoas passarem, pode ser angustiante. O trabalho mecânico e mau pago gera trabalhadores cansados e menos propensos ao pensamento, alienados de sua classe e das engrenagens que o cercam. O ato de parar para pensar é essencial à quebra das correntes que movimentam a máquina capitalista, cujos pregos e parafusos são estes mesmos trabalhadores, muito mais necessários à produção industrial do que os patrões, que se utilizam da mais valia para garantir o lucro e enriquecer às custas do suor  de outros corpos.

A filmagem mostra a surpresa dos trabalhadores que, ao realizarem uma conta simples, de divisão e multiplicação, pela primeira vez, em muitos anos de labuta, pensaram sobre o quanto vale a sua exploração. O quanto vale o seu tempo para suprir as necessidades, cuidar dos filhos, pagar o aluguel em detrimento ao tempo que gastam se deslocando para o trabalho além das horas diretamente empregadas no  labor. Com um roteiro aparentemente simples, Carla Santa, de modo magistral, pôde trazer para dentro do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, através de seu vídeo, os trabalhadores que transitam muito próximos dos centros culturais e de outras Instituições destinadas à formação humana, ao contemplar e aos interesses concernentes ao desenvolvimento dos sujeitos enquanto atores da sociedade, mas que, contudo, estão sequestrados por trabalhos que exigem muito tempo gasto, a menos de 5 reais por hora, e que, por isso mesmo, precisam ser despertos pela arte, onde quer que eles estejam, nem que seja de passagem.

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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