Carolina Lopes Crítica semanal

é a letícia

uma mulher entra num apartamento, pega um gravador, que está ao lado de um telefone. grava uma pergunta, repetidas vezes. ela então disca um número no telefone e aciona a gravação que reproduz incessantemente sua pergunta: “alô, é a letícia?”

doutora em química, mãe de 5 filhos, letícia parente iniciou suas pesquisas artísticas só aos 40 anos.  seus trabalhos, hoje, são considerados emblemáticos e precursores da videoarte no país, apesar de ainda não fazerem parte da historiografia da arte do brasil. sua obra, como de outros atores da nossa história da arte, não se encontram nos livros, não são mencionados nas aulas, não são objetos de pesquisa. pesquisa que inclusive se faz absolutamente necessária, pela escassez de registros e por se tratar de uma personagem de grande importância para a constituição da identidade artística contemporânea brasileira.

como se antevisse esta condição, em made in brasil a artista escreve na sola do pé, com linha e agulha, a frase que nomeia o trabalho. expõe a condição do corpo como produto. e como um produto, submetido então às dinâmicas de mercado. de certo modo, expõe também uma circunstância que promove exatamente o tipo de seleção que a deixa de fora de uma história da arte, apesar da relevância de sua obra. o corpo é o ponto de partida de parente. ela age no próprio corpo e dele expande. ela mesma é uma casa. com os olhos fixos pra dentro, vê e fala sobre sua condição de mulher, mãe, brasileira e artista. em tarefa I a artista se deita em uma tábua de passar, e uma outra mulher, negra, passa o ferro em seu corpo, como se passasse a roupa. dentro desta casa, que é a obra de parente, ela pega as roupas sujas para lavar, vira-as do avesso. aponta as condições dos corpos subalternizados. em preparação I, a artista que se arruma para sair, ao parar diante do espelho para se maquiar, cobre olhos e boca com fita adesiva, e desenha sobre a fita novos olhos e boca. parente fala da condição do feminino, dos padrões de beleza, do espaço do corpo negro, da domesticalização do corpo da mulher, do espaço público restrito a certos corpos. a costura da sola do pé, costura todo o corpo, e são diversas as linhas. parente mostra o verso do pano.

preparação I

a artista participa, entre 1974 e 1982, de um grupo chamado de geração 70, por roberto pontual. este grupo, pioneiro da videoarte no brasil, era formado por anna bella geiger, fernando cocchiarale, sônia andrade, ivens machado, paulo herkenhoff, miriam danowski e ana vitória mussi. com este grupo, a artista desenvolveu seu trabalho produzindo obras de arte postal e xerox, experimentando novas mídias. a artista enviava as matrizes dos trabalho para as exposições, o que provocou uma perda de grande parte de seus vídeos. a ausência destes trabalhos soa como uma explicação para o pouco conhecimento sobre a obra da artista. em armário de mim, a artista fotografou uma série de imagens de um mesmo armário, com diversos objetos, móveis e pessoas, em cada imagem. observando minuciosamente a casa, e os amigos que a frequentavam, parece incoerente a exceção das fotos da artista nos livros de família.

ARMARIO DE MIM

aquela mesma mulher. ela desce as escadas, vai até a rua, anda até um outro prédio. sobe e entra em um apartamento. o telefone está tocando. ela retira-o do gancho e responde à pergunta que se repete: “é a letícia.”

*a descrição no início e no final do texto tratam-se do trabalho da artista, A Chamada (1978), considerado perdido.

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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