Crítica semanal Gabriela Manfredini

PEQUENA LISTA DE MISÓGINOS DA ARTE

Não há dúvidas de que estamos vivendo num momento onde a transparência é imprescindível. Tanto as pessoas que aparecem na mídia têm que ter cuidado com o que falam e postam nas redes sociais quanto as marcas com seus consumidores. Houve muitas polêmicas nos últimos tempos envolvendo empresas grandes que foram “boicotadas”. Posso citar de memória o caso do Carrefour e a morte do cachorro, o do supermercado Hirota e sua cartilha homofóbica e o dono da empresa Barilla que fez um comentário ofensivo aos gays há alguns anos e teve que se retratar publicamente.

Estou dizendo isso porque no mundo da arte não é diferente. Muitos artistas misóginos e assediadores estão sendo descobertos e acusados agora. Essa ficha caiu quando assisti o stand-up Nanette da comediante Hanna Gadsby, disponível no Netflix e que recomendo muitíssimo. Além disso, o caso do médium João de Deus, recentemente acusado por mais de 500 mulheres de abuso sexual, estupro e incesto me fez pensar no quão difícil tem sido para as mulheres poderem se manifestar e denunciar abusos até os dias de hoje. Ainda é penoso acreditar que a vítima NUNCA é culpada.

Agora vamos a pequena lista:

Começamos na Grécia com Aristóteles que afirmava “A natureza só faz mulheres quando não pode fazer homens. A mulher é, portanto, um homem inferior.”

Entre os pintores modernos, Gauguin tinha várias escravas sexuais menores de idade no período que morou no Taiti. Teve três noivas nativas – com idades entre 13 e 14 anos – infectando-as e também inúmeras outras garotas locais com sífilis. Picasso, teve casos com menores de idade, atitudes e frases misóginas.

No cinema, temos o famoso caso do diretor Woddy Allen que manteve relações sexuais com a enteada e a filha adotiva, ambas menores de idade. O diretor coreano Kim Ki-Duk, que embora tenha realizado diversos filmes maravilhosos e sensíveis, foi acusado de estupro por três atrizes. No hall da sétima arte, temos também Roman Polanski acusado de estupro por duas atrizes, que na época do ocorrido, eram menores de idade. Seguimos com Bernardo Bertolucci e Marlon Brando, respectivamente diretor e ator do filme “O último tango em Paris”. Ambos são acusados pela famosa cena de sexo anal com manteiga, protagonizada pela atriz Maria Schneider, que afirmou recentemente não ter conhecimento nem consentimento no momento da filmagem. Há também o caso mais recente em Hollywood do produtor cinematográfico Harvey Weinstein, acusado por diversas atrizes como Angelina Jolie e Gwyneth Paltrow. Engrossando a lista: Bill Murray, Charlie Sheen e Johnny Depp.

Se formos entrar no ramo música, a lista também vai longe. Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Roberto Carlos, nenhum escapa e, inclusive, existe um site com trechos de músicas machistas chamado “MMPB: Música Machista Popular Brasileira”. Se formos adentrar pelos gêneros sertanejo e funk – bastante populares no Brasil – veremos que não há limites para o machismo.

Além disso, um dos apresentadores mais famosos da televisão brasileira fez recentemente comentários completamente desnecessários – para não dizer mais – para a cantora Cláudia Leitte. Além dos tantos inconvenientes e constrangimentos com a atriz Maisa Silva.

Aí vem a pergunta: devemos separar o homem da arte? Devemos boicotar os filmes do Woddy Allen? E as pinturas do Picasso?

Por um lado, é possível separar o homem da arte por ele criada. Mas só porque podemos separar a arte do artista não significa que sempre deveríamos. O que é certo, é que é impossível eliminar os quadros dos museus. Destruir qualquer obra de arte não é uma opção. É preciso haver um esforço para que exista mais responsabilidade por parte das instituições culturais, museus e mídia de modo geral. E obviamente, lutar para que a cultura machista, abusiva e do estupro acabem. Mas podemos comemorar que hoje, é um pouco mais fácil – embora nunca seja fácil – uma mulher denunciar que sofreu algum tipo de abuso ou violência.

“Cadê meu celular?

Eu vou ligar pro 180

Vou entregar teu nome

E explicar meu endereço

Aqui você não entra mais

Eu digo que não te conheço

(…) Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”

CRÉDITO: Fotografia de George Lange. Guerrilla Girls em Nova York, 1985.

gabriela

GABRIELA MANFREDINI é uma artista emergente, designer e ilustradora residente em São Paulo. Interessa-se pelo universo artístico desde criança. Seu trabalho é principalmente envolvido por temas como conexão, encontros e empatia.

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