Camila Vieira Crítica semanal

Através do espelho

Bandersnatch é o nome de um personagem do conto de Lewis Carroll Alice através do espelho, 1872, e, não por um acaso, dá título ao filme homônimo lançado na plataforma Netflix, em 2018, segundo a lógica da série Black Mirror: espelho negro, numa tradução livre. Assim como os episódios das séries anteriores, o escopo do filme questiona a relação entre a tecnologia e o ser humano. Desta vez, porém, a tecnologia é o meio, e não o tema do episódio. Se nas sessões anteriores a tecnologia nos era apresentada através de roteiros distópicos e questionadores, que nos fizeram pensar a respeito das nossas próprias relações com o desenvolvimento tecnológico e com as possibilidades que a evolução científica dos aparelhos pode trazer; dessa vez é por meio da tecnologia que nós, telespectadores, somos inseridos na história, que se desenvolve ora por meio de nossas escolhas, ora por meio das interações e das vontades do próprio personagem cujo enredo gira ao redor.

Escrito pelo criador da série, Charlie Brooker, e dirigido por David Slade, o filme retrata as pressões psicológicas e emocionais que o jovem Stefam Butler desenvolve após ler um livro, dentro de sua realidade ficcional, chamado Bandersnetch, cujo autor foi responsável por um crime hediondo e, no universo ao qual Stefam pertence, diagnosticado como paranoico. Jerome F. Davies, autor do livro dentro do universo ficcional, acreditava que existem múltiplas realidades paralelas e que o livre arbítrio não existe, pois as escolhas não são feitas pelos indivíduos, porém predestinadas. Deste modo, ele justificou o assassinato de sua esposa pois, segundo essa lógica, ele não é responsável por suas ações, antes, conduzido por elas. Obcecado pela história e com medo de ser controlado, seja por uma empresa ou por um ente demoníaco, o destino de Stefam se desenvolve enquanto as possibilidades narrativas afloram na tela, por meio de duas ações que devem ser escolhidas pelo espectador-participante.

De ações pequenas, como escolher o cereal do café da manhã ou a música que Stefam vai ouvir durante o trajeto para uma entrevista de emprego, passamos a temas mais complexos, como revisitar traumas de infância, acreditar ou não em teorias da conspiração, cometer suicídio ou homicídio. As escolhas que fazemos, enquanto espectadores-participantes, por vezes chegam a nos frustrar tanto quanto ao personagem que inicialmente se deixa conduzir, porém, diante do desenvolvimento da trama, passa a questionar determinadas ações que o induzem a pensar que está sendo controlado. Se há uma quinta parede a ser rompida no cinema, sem dúvida, Bandersnetch o fez. O personagem principal se inspira numa obra ficcional de seu universo para desenvolver um jogo com o mesmo propósito que o do livro: criar linhas temporais que interferem o resultado do jogo de acordo com as decisões tomadas pelos jogadores. Na nossa realidade aumentada, somos nós que jogamos com Stefam.

Como nos alerta um dos personagens da trama: “Todo jogo tem mensagens. Sabe o que quer dizer PAC MAN? PAC -Program and control. Ele é o homem programado e controlado. A coisa toda é uma metáfora. Ele pensa que tem livre arbítrio, mas na realidade ele está preso num labirinto, num sistema, tudo o que ele pode fazer é consumir. Ele é perseguido por demônios que provavelmente existem apenas em sua cabeça. E mesmo que ele consiga escapar escorregando para fora por um lado do labirinto. O que acontece? ele volta imediatamente pelo outro lado. As pessoas pensam que é um jogo alegre. Não é um jogo alegre, é um mundo de pesadelo. E a pior coisa é que esse mundo é real e nós vivemos nele”. Quem lembrou do Sistema Capitalista e o controle que o dinheiro exerce sobre nossas escolhas, levante a mão.

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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