Carolina Lopes Crítica semanal

problema de cor

— menino veste azul e menina veste rosa!

o problema da cor, no mundo ocidental existe, e não é recente. leonardo da vinci dizia que, a espectador quando não experimentado nas artes, quando a aprecia a obra de arte, só pode perceber sua beleza e qualidade, através da cor: a característica mais superficial. david batchelor discorre sobre o assunto, em seu livro cromophobia. fala sobre a compreensão ocidental da superioridade do branco, bem como do desenho, em comparação às cores. é a associação da razão, da estabilidade, da segurança e controle do branco, em relação à primitividade e instabilidade das cores. pode parecer ridículo mas, aqui não se trata mais somente de gosto, sobre quais obras de arte se tem preferência, em se tratando das cores ou da supressão delas. a questão é maior. trata-se da construção de padrões estéticos que alcançam diversas esferas da vida social, que se descola do campo da arte e alcança a ‘vida real’. em textos diversos, a questão da cor é tratada como algo relacionado ao feminino, ao primitivo, selvagem, incontrolável. com menções imbuídas de preconceito, sexismo, racismo, etc; as considerações a respeito das cores aos produtores de cultura visual e seus teóricos, andam lado a lado com o racismo, por exemplo. o branco, presente nas estátuas gregas e italianas, é o belo, e o puro, e o bom, e o racional. o branco que tudo revela, que julga e purifica. o branco que se alcança quando purificado, como nos dizeres bíblicos. a graça está no fato de, o branco das estátuas gregas e italianas é um equívoco, nelas haviam cores. muitas. chocantes. vibrantes. exatamente aquelas cores que hoje, aqui no ocidente, olharíamos nós, os experimentados, e diríamos: cafona!

seja nas comparações entre o branco e as cores, seja entre as cores, quais são as melhores, a questão da cor acaba por definir como se comportam os papéis sociais. a compreensão social simbólica das cores, interferem radicalmente em como pessoas devem se comportar e como pessoas distinguem grupos sociais em seus privilégios ou faltas. esta semana tivemos o episódio emblemático do grito orgulhoso da ministra da mulher, família e direitos humanos damares alves, dizendo “é uma nova era no brasil: menino veste azul, menina veste rosa.” foi uma comoção grandiosa, de tamanho igual ao tipo de associação limitadora e ultrapassada de gênero e cor. parece pequeno, mas é exatamente uma declaração que assume a diferenciação de gêneros que a questão da cor aparece como classificação visual, rapidamente decodificável. longe de ser superficial, como acreditado durante tantos anos na história da arte, a questão da cor persiste e atinge as pessoas e comportamentos ainda. desde o branco minimalista, passando pelas cores de matisse, chegando aos tecidos africanos, aos vermelhos japoneses, é simples olhar para os lugares e perceber a cor das pessoas que os ocupam e entender o porque. as pessoas seguem anunciando o sexo de seus filhos simplesmente através de um código social de cor, que já pesará sobre sua formação de gênero. ainda nas escolas dividem materiais escolares entre tons de rosa ou de azul para meninas e meninos. o brasil hoje está dividido entre camisas canarinho ou camisas vermelhas. e basta olhar para o momento político do brasil e perceber qual cor tem as pessoas que estão ocupando os mais altos cargos do poder.

 

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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