Camila Vieira Crítica semanal

Série Manobra

A Série Manobra, 2018, composta pelas obras Via de mão única e O meio, são a expressão de uma estética quase que fauvista, misturada à temática do cotidiano carioca, pigmentado segundo os materiais disponíveis à realidade social que cerca o artista Mulambö. O movimento fauve, como se sabe, é um movimento surgido da modernidade francesa, segundo os padrões cromáticos nos quais Matisse, entre outros artistas, se pautavam para criar uma realidade cromática mais vibrante que a materialidade cinzenta das ruas de Paris. Cores agressivas não precisavam ser desempenhadas ao lado de tons pastéis ou de simulações tridimensionais para criar o contraste expressivo conseguido pelos barrocos com seus claro-escuros. A cor, por ela mesma, se comporta com tal intensidade que a energia gerada pelo confronto do pigmento rebate diretamente na retina do observador. A cor pura, a partir de então, se desenrola através dos séculos posteriores a uma linguagem serigráfica, desdobrada pela Arte Pop, cujos elementos figurativos são simplificados e preenchidos pelo vermelho mais apaixonado ou pelo amarelo mais vibrante. Deste modo, por causa da cor, é possível delimitar algumas influências que podem ajudar a forjar a narrativa sobre o conceito que norteia o trabalho de Mulambö.

A estética fauvista, a que me refiro, não está necessariamente na agressividade dos contrastes de cor, antes na temática abordada em vermelho e preto, não fugindo à bidimensionalidade empregada quando o preenchimento das figuras não diferencia os tons. As figuras recortadas conduzem uma narrativa visual, devido às cenas retratadas no suporte, e verbal, uma vez que existe um subtítulo pintado em branco, que flutua no fragmento imagético que foi congelado, à similitude de quando pausamos um filme ou capturamos, através de uma fotografia, uma determinada ação. A obra O meio nos traz uma perspectiva dúbia, uma vez que não é possível saber se são dois homens posicionados, com metralhadoras, a mirar num inimigo oculto, ou se é um mesmo homem a apontar a arma à própria nuca, pois o centro da obra é um espaço vazio entre as costas da metade de uma figura e as costelas da outra fração. Além do recorte é a cor, vermelha, acompanhada  apenas pelo contraste preto que a limitação bem marcada da figura recebe, a propósito de seu contorno, a causa dessa dubiedade intencional, pois o homem que mata pode morrer pelo mesmo meio que atingiu sua vítima. O meio, na obra, é o meio do suporte. Também é o meio pelo qual se mata e pelo qual se morre. E o espaço social que a figura vermelha representa, dentro do contexto carioca ao qual o artista pertence, também é um meio: de sobrevivência, poder ou de ambos. Metade homem, ao perecer, metade Deus, ao decidir quem morre.

A súplica contida em Via de mão única, não deixa mentir que existe uma arma oculta pelo breu que o pigmento escuro preenche no suporte. Se trata, a obra, de uma violência material e simbólica, uma vez que os dizeres “mão invisível”, podem receber outra referência, que não apenas o do ocultamento da arma que aponta para a mão suplicante, mas da mão que age em outros meios, políticos ou econômicos, de modo que a cena de violência ocorra. Não é possível negar que a desigualdade social é em grande medida a responsável por uma estrutura que possibilita e alimenta o crime organizado e as facções , responsáveis, por sua vez, pela violência gritante que atinge as comunidades carentes, sob pena de morte, e as zonas ricas da cidade, sob forma de assalto. O ciclo econômico gerado pelas grandes corporações e pelo acúmulo de riquezas se traduz na obscenidade de uma guerra às drogas que consiste mais num genocídio de pobres, pardos e negros, policiais e bandidos, do que numa política contra o crime. O contraste sombrio entre a cor do sangue e a nulidade pictórica que a tinta preta produz é clímax do terror do dia-a-dia. O suporte de papelão, frágil, traduz em si mesmo a transitoriedade da vida. Para sobreviver à realidade, é preciso, por isso mesmo, ser uma fera.

 

O meio.jpg

Série Manobra. O meio. Mulambö.

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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