Carolina Lopes Crítica semanal

direita volver

era labiríntico. cheio, lotado. era como se tivesse pegado a chave escondida, e corresse pra abrir aquele quartinho no fundo da casa. o desejo de saber da história, a parte omitida. a pressa e o fluxo forte de informações é proporcional ao risco de um novo trancamento.

ai-5 50 anos – ainda não terminou de acabar, no instituto tomie ohtake, tinha certa urgência, quase profética. às vésperas de uma eleição que dividiu absolutamente o país, a exposição que fazia referência ao terror e sombra do passado, parecia querer introduzir, com as ferramentas possíveis, uma memória amputada da história do brasil. logo ao iniciar a jornada por esta parte da história em obras de arte do período, um retrato atualíssimo: direita volver, de samuel szpigel. eram os pés dos militares em marcha e a direção para o qual apontam. pouco à frente o choque máximo deste período de trevas. no trabalho inacabado de antonio benetazzo, sua última obra. no intervalo em que produzia o trabalho exposto, o artista foi assassinado por ocasião de seu envolvimento político, tendo sua morte noticiada como suicídio. a exposição, para além das obras, é completamente carregada de textos. à cada trabalho, histórias chocantes sobre usurpação de direitos, supressão democrática e ameaças. um grande x, que rabisca a parede amarela da exposição, sintetiza o símbolo principal de todo um período, é o projeto não realizado de carmela gross.

 

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em trabalhos como tiradentes – totem monumento ao preso político, de cildo meireles, a exposição imediata da fragilidade gerada pela interdição à democracia. é uma provocação visceral, grave. tem a gravidade do problema corrente, como se quisesse berrar aos ouvidos o quanto era muito pior a situação da vida real, era e havia sido nos tempos do mártir tiradentes, para além daquele trabalho de arte. na obra, o artista amarra dez galinhas a uma viga de madeira, enche-as de querosene e ateia fogo em todas elas. em a parte do fogo (versão assegurada), de matheus rocha pitta, uma metáfora da limitação de acesso à obscuridade histórica. uma vela enorme, com uma corrente que a amarra a uma cadeira. o trabalho, comissionado para a exposição, tinha como desenrolar de sua essência, o consumo da parafina pela chama, durante todo o período da exposição, que revelaria então a corrente que transpassa o corpo da vela. por conta de regras de segurança, a chama não pode ser acesa, não revelando então o ponto de tensão presente no trabalho

Cildo Meireles – Tiradentes| Matheus Rocha Pitta – A parte do fogo (versão assegurada)

a exposição, curada por Paulo Miyada, foi concebida à ser realizada de modo colaborativo. através de convites a curadores, pesquisadores e instituições culturais, o instituto tomie ohtake se propunha a fazer um levantamento abrangente obras e documentos do período ditatorial. como sinal da força ainda presente do autoritarismo passado e iminente, muitas instituições e pesquisadores se abstiveram de colaborar. essa escrita, que se dá por ocasião dos primeiros 13 dias de um governo anunciadamente de ideologia fascista e autoritário, começa a promover movimentos neste sentido. eu, estudante de história da arte, feminista que sou, já tenho como certo que minhas pesquisas acadêmicas não terão o apoio financeiro de uma bolsa, simplesmente por tratar-se de uma pesquisa que se baseia numa corrente ideológica que difere a do governo. neste mesmo dia, o governo do estado exigiu o fechamento da casa frança-brasil, para desmontagem da exposição, alegando quebra de contrato. o grupo és uma maluca, faria uma apresentação que faz referência a ditadura.

CAROLINA LOPES

 

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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