Crítica semanal Mayã Fernandes

No alvo do avesso do afeto: propaganda fascista e a caça aos LGBTIQ+

Ao entender o contexto atual e o crescente discurso de ódio contra grupos minorizados como negros e LGBTIQ+, retomo o texto A irracionalidade à espreita, publicado aqui na Desvio em 5 de novembro de 2018. Meses se passaram, mas a sensação de insegurança e a alienação das massas continuam.

Adorno (1951) analisa o início da ascensão fascista e o processo de captura das massas. A propaganda fascista conta com agitadores, pessoas que preparam uma polêmica, discurso sobre menino vestir azul e menina vestir rosa, frases sem muito nexo, que escondem temas já trabalhados pela comunidade científica, mas que são ignorados. Esses agitadores, como a ministra Damares Alves, carregam em seu discurso uma agressividade irracional, dirigindo seu ódio às pessoas que fogem da heteronorma, por exemplo. Depois, têm como pauta um único propósito político: a abolição da democracia por meio do apoio popular.

A publicidade fascista age na criação de um vínculo entre um líder e as massas. Esse vínculo é essencial para a ascensão política legitimada pelas massas fascistas. Contudo, no caso da população LGBTIQ+, parece que o processo psicologizante da propaganda não é suficiente para a criação do elo. Essas propagandas são baseadas em um modelo heteronormativo apoiado em uma moral cristã, em que guarda em si resquícios de lgbtfobia. Esse fato explica a não total aderência da população LGBTIQ+ ao discurso fascista. Assim, o que faz com que o ódio contra as minorias ganhe mais força? Como acontece o encantamento entre as massas e o líder?

Observando as propagandas políticas nas eleições de 2018 é evidente as crescentes informações alarmistas, que utilizavam como base acusações ilógicas, como um “kit gay” que foi supostamente distribuído em escolas, que na verdade tratava-se de uma inciativa denominada “Escola sem homofobia”, projeto do governo Federal de 2004 que não foi colocado em prática. Em face das fake news, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou a remoção de vídeos na internet que geravam a desinformação, prejudicando o debate político. Mesmo com a proibição, os vídeos continuam circulando na rede. Informações como essas endossaram o preconceito em torno do tema.

Adorno explica que o processo de desindividualização, marcado pela irracionalidade e propensão à violência, está ligado a questões psicológicas freudianas. Na busca por respostas que expliquem como ocorre a transformação do sujeito em massa, os indivíduos de um grupo combinam-se em uma unidade e se ligam por meio de uma caracterização artificial. Para Adorno, no exército, quase não se faz menção a qualquer tipo de amor entre os membros, sendo a união entre militares mediada pelo patriotismo. Esse amor os liga de modo artificial e faz com que convivam harmoniosamente dentro do grupo, mas que não compreendam outras formas de vínculos amorosos que ocorram fora de seu meio social. Esse amor torna-se então modelo para seus relacionamentos.

O discurso amoroso quase não é utilizado pelos líderes fascistas. O conceito de amor é sublimado, sendo destinado de modo fanático a algo metafísico. Deste modo, parece-me que aqueles que compartilham do amor mediado excluem a sua subjetividade em troca da aceitação do grupo. Já o amor fora da heteronorma não é um amor mediado, existe o sujeito que se afirma diante da sociedade para conseguir sobreviver com sua subjetividade, experimentando um amor espontâneo e não controlado por mediadores. Esse amor espontâneo é reprimido. Toda e qualquer expressão de individualidade e a recusa por não fazer parte do grupo, faz com que essas pessoas virem alvos. A única forma de aceitação dos grupos minorizados pelo fascismo é através da obediência.

Diante da ascensão das massas fascistas no Brasil, a segurança da parcela da população que não declara obediência está em risco. O medo é real. Como resistência, esses grupos passam a buscar formas de organizações destoantes do modelo fascista, baseadas sobretudo na ideia de amor espontâneo e empatia. A quebra do padrão heteronormativo é revolucionária e, por mais que incomode os fascistas, essa ruptura continua ganhando força e se alastrando, tornando-se afago em meio à violência.

maya

 

MAYÃ FERNANDES é formada em Filosofia pela UnB e atualmente é mestranda em Metafísica pela mesma instituição. É pesquisadora da Cátedra UNESCO Archai: Origens do pensamento Ocidental e editora da PHAINE: Revista de Estudos Sobre Antiguidade. Estuda a teoria do belo na antiguidade e escreve crítica de arte no site Linhas de fuga.

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