Camila Vieira Crítica semanal

Arte Pão com Ovo

Celebrar a arte enquanto arte do povo, palatável, composta pela simplicidade de elementos que rememoram um dos alimentos mais simples e de maior presença nos lares brasileiros, pode ser o mote da Arte pão com ovo, 2018,  obra do artista Rafael Amorim. A obra em si é uma mistura, já que traz elementos de um happening, que consiste na distribuição de pães com ovos durante a abertura da exposição e de uma colagem feita de sacos de pão, material frágil que se esgarça com o tempo, remetendo à transitoriedade da ação e do trabalho que figura na galeria. Por causa do grupo curatorial à qual a obra faz parte na mostra PEGA II, realizada no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, a leitura da obra pode se estender para além do material e se conduzir pela temática que o conjunto dos outros objetos artísticos transparece: a do trabalho. Necessariamente, é importante rememorar que, apesar da diversidade social, racial e religiosa que podemos encontrar numa vernissagem, principalmente quando se trata de uma exposição de jovens artistas, a Arte sempre foi, desde a modernidade, quando surge a burguesia, coisa da elite.

Trazer para o espaço expositivo um alimento que diga respeito à grande maioria da população, que em larga medida não frequenta os museus, tem algo de sarcástico. Ao mesmo tempo, a proposição alimenta àqueles que por falta de dinheiro, de opção ou dos dois,- ainda que frequentem os espaços culturais que a elite elege enquanto dignos de acolher a cultura visual de sua cidade -, sentem, mesmo que por um breve momento, fome. Apenas com a universalização do ensino gratuito no Brasil foi possível que pessoas periféricas frequentassem a mesma universidade que os filhos da elite, contudo, as distâncias percorridas e as barreiras que os jovens estudantes periféricos enfrentam para chegar sequer a concluir os estudos, entre elas a violência urbana proeminente nas margens da cidade, o valor absurdo do transporte e as enormes dificuldades econômicas da maioria das famílias brasileiras, faz com que a disparidade no campo do trabalho criativo seja igual ou tão maior quanto a replicada socialmente entre os empregados mal remunerados e seus patrões, donos dos meios de produção.

Essa obra, portanto, apesar de simples, do ponto de vista material e temático, consegue jogar luz a uma questão que muito se debate na Academia, que é a desigualdade, para dentro do espaço expositivo enquanto um evento, elitista por si só, acontece. A aparência de horizontalidade e similaridade entre professores, alunos , artistas consagrados e artistas aspirantes, se dissolve no momento em que as hierarquias de poder voltam a se estabelecer no dia-a-dia, perdurando até o período em que, impossibilitados de prosseguir produzindo, devido ao baixo reconhecimento da profissão e ao campo altamente competitivo da Cultura, alguns jovens estudantes passam a procurar outras formas de sobreviver dentro do sistema Capitalista, desistindo do campo artístico. Antes de sofrermos por antecedência, porém, podemos ao menos celebrar a vida e a Arte enquanto iguais, nem que seja um por uma momento tão transitório quanto as folhas que abrigaram os pães e, sem muita demora, se desfarão ao longo do ano, encerrando um ciclo que começou na galeria e que vai se encerrar em breve, não se sabe, porém, quando.

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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