Carolina Lopes Crítica semanal

obrigada, senhor ladrão

no dia 29 de setembro de 2000 realizei uma ação, a qual consistiu em assaltar a uma pessoa de classe média. Se realizou da seguinte maneira: armado com uma pistola, saí para uma rua da zona 10, parei um homem de uns 44 ou 45 anos, pouco cabelo castanho, um pouco gordo, a apontei para a cara dizendo, isto não é um assalto, é um empréstimo, e se devolverá em linguagem visual para seus filhos. A pessoa me entregou Q 874.35.

esta obra está sendo patrocinada pelo homem que foi assaltado, com o qual se financiou: os convites, montagem e parte das bebidas desta mostra.

este relato é o trabalho el prestamo, de aníbal lopez. tive contato pela primeira vez com este trabalho e com obras do artista na 33ª bienal de são paulo – afinidades afetivas, e posso afirmar, era a melhor coisa de toda a mostra, principalmente em se tratando de um artista desconhecido por muitos no brasil. sempre que vou falar da obra de algum artista, uso o espaço desta coluna para falar somente, exclusivamente de mulheres de todas as ordens e naturezas. abro uma ligeira exceção para falar da obra deste artista, latino americano, já falecido, e que, de certo modo, parece sintetizar o que é arte contemporânea dentro de um contexto pós colonial: ele traz os reflexos dessa colonização na cara, na fala, na arma.

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EL PRESTAMO de Aníbal Lopez

aníbal lopez, que é da guatemala, assina suas obras por A-1 53167, seu número de identidade. quando apresentados, lopez já comenta uma questão étnica: seu nome latino por si só poderia encaixar sua obra sob uma ótica para um grupo étnico, em vez de uma compreensão universal. promovendo ações desde o início de sua carreira artística, utiliza a linguagem como modo de encurtar camadas, desde a vida real até o público consumidor de arte. o artista já esteve em outra mostra aqui no brasil, na 6ª bienal do mercosul. o trabalho que expôs, escultura passada de contrabando do paraguai ao brasil, mais uma vez punha em xeque concepções sobre ética, crime e arte. contratou um contrabandista paraguaio, de nome moreno, para contrabandear sua escultura, que consistia em 500 caixas pretas, do paraguai ao brasil. as caixas, vazias, prontamente levantavam uma questão: se pegos, os contrabandistas seriam presos?

Escultura passada de contrabando do Paraguai ao Brasil.jpg
Escultura passada de contrabando do Paraguai ao Brasil

havendo vivido durante toda a vida na guatemala, país que sofre com o crime e a violência, e com problemas políticos bem próximos aos do brasil, lopez não rodeia para colocar o problema da violência e do crime como uma questão essencialmente decolonial. como aplicar noções éticas e constituir uma lei, baseados nos modos de vida europeus, depois de se haver tanto sofrido com a exploração colonial? em testimonio, o artista leva à documenta de kassel um sicário, figura comum na sociedade guatemalteca, para que o público, consumidor de arte, fizesse quaisquer perguntas a ele. o assunto ‘morte’ sendo comentado em um país com um histórico preponderante em torno de tal assunto, a morte guatemalteca encomendada no momento era exótico, um fetiche.

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TESTIMONIO de Aníball Lopez

em the beautiful people, o artista combina com os seguranças da exposição, que só permitam a entrada de pessoas bonitas. todos no local eram sem sua maioria, mulheres, brancas. lopez, foi barrado, na própria exposição. no mesmo momento em que expõe uma obra, transforma aquele que vê ou que lê em cúmplice. subverte a lei, pelo privilégio de ser artista. traz a realidade pra galeria, que a consome seja de que natureza for. quando assalta, a gente diz: obrigada.

 

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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