Crítica semanal Mayã Fernandes

Herdeiros, pra que te quero?

Com a mudança do governo seria previsível saber que a arte ganharia o centro das atenções. Seja por meio da censura e da intolerância, ou por interesses financeiros, o universo artístico se faz atraente para a direita brasileira. Com um forte discurso de responsabilidade social empresarial, a parceria entre governo e empresários é explicita em grandes eventos como a Bienal do Mercosul. Com papeis bem definidos, parece que os lugares eram respeitados e no fim o evento só acontecia com a participação de artistas e curadores. Depois do aumento das inciativas privadas em espaços culturais, percebeu-se que os empresários estão cada vez mais presentes e não é possível restringir seus limites.

Nesta semana o empresário Charles Cosac foi cotado para a curadoria do Museu Nacional da República e será nomeado dia 21/01. Indicação do governo de Ibaneis Rocha (MDB), semelhante ao de Dória em São Paulo, propõe um empresário para ocupar lugar privilegiado dentro do Espaço cultural. Além disso, especula-se que Cosac terá papel relevante em decisões da Secretaria de Cultura.

Como atributos para ocupar a posição, Cosac coleciona uma carreira como editor e dono da finada editora Cosac Naify e uma breve gestão na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. Como estudou teoria e história da arte na Inglaterra e Rússia, o governo acredita que Charles conseguirá gerir o plano de trabalho de um dos principais pontos de cultura da capital.

Localizado na Esplanada dos Ministérios o Museu Nacional foi projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer e presenta exposições temporárias nacionais e internacionais, assim como exposições de médio e grande porte, temporárias, do acervo próprio do Museu. No último ano a estrutura do Museu contava com os cargos de Diretoria e Coordenação. Não era explícito um cargo de curadoria.

Aprendemos a ser desconfiados com herdeiros. O perigo de uma curadoria única para um espaço da dimensão do Museu Nacional da República é do plano de trabalho propor um crivo ideológico. Tal decisão de situar Charles Cosac à frente do Museu Nacional da República demonstra as reais intenções de um governo populista de direita.

Em dezembro de 2017 a Secretaria de Cultura anunciou que estuda a cobrança de ingresso no Museu Nacional da República e em outros espaços culturais de Brasília. Quem conhece a cidade, sabe que existe uma luta por parte de artistas, curadores e agentes culturais em realizar a democratização do acesso aos espaços. Brasília é uma cidade segregadora, que limita o acesso a atividades culturais de caráter público.

Com a união de um governo que está à serviço da economia com um empresário sem experiência no ramo artístico e em gestão pública, percebe-se a intenção de elitizar ainda mais o acesso da população à educação e à cultura.

maya

 

MAYÃ FERNANDES é formada em Filosofia pela UnB e atualmente é mestranda em Metafísica pela mesma instituição. É pesquisadora da Cátedra UNESCO Archai: Origens do pensamento Ocidental e editora da PHAINE: Revista de Estudos Sobre Antiguidade. Estuda a teoria do belo na antiguidade e escreve crítica de arte no site Linhas de fuga.

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