Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Venceremos!

Venceremos!

Marcela Cantuária homenageia Matheusa Passarelli no Museu Nami

 

A Rede Nami é uma ONG que promove a arte como veículo de transformação cultural por meio da valorização e difusão dos direitos das mulheres. Fundada por Pamela Castro em 2010, a Nami é uma organização de artivismo: as expressões artísticas são manifestações da luta pela equidade de gênero e por uma sociedade sem violência contra mulheres. Localizada na comunidade Tavares Bastos no bairro do Catete no Rio de Janeiro, a ONG tem o grafite como seu principal (mas não único) movimento de expressão: entende-se a multiplicidade das artes urbanas como um meio de conscientização e resistência.    

A Rede tem diversas frentes de atuação, entre elas o Museu Nami. Materializado a partir das criações realizadas por artistas grafiteirxs em um circuito à céu aberto nos muros da Tavares Bastos, o projeto constitui um museu vivo que impulsiona processos de curadoria participativa, co-criação, mapeamento e pesquisa, junto às/aos moradorxs da comunidade e visitantes. Desde 2013, a Nami oferece às artistas mulheres e periféricxs a infraestrutura necessária para o desenvolvimento das obras, além de catalogar e documentar todo o processo de produção.

Diante da indignação de vivermos em uma sociedade colonizadora, patriarcal, misógina, lesbo-homo-bi-transfóbica, altamente preconceituosa e violenta, surge a necessidade de criarmos vias de conscientização e enfrentamento. A concepção de um museu decolonial a céu aberto ocorre justamente porque acreditamos que, através de processos e ações artístico-curatoriais críticas e participativas, é possível confrontar as colonialidades do ser, do saber e do poder. As colonialidades são reproduzidas com o objetivo de perpetuar contextos de descaso, subalternidade e invisibilidade dos sujeitos e de seus territórios. Então, entendo o Museu Nami como uma ação insurgente e decolonizadora do pensamento e da prática museal, constituindo uma luta genuína pelo Direito à Memória. Assim, o projeto tem a capacidade de viabilizar a elaboração de narrativas históricas próprias e de incentivar a valorização dos bens locais.

A maioria esmagadora das instituições de arte têm uma classificação étnica e econômica, se constituindo, ainda hoje, como lugares inacessíveis e de exposição quase que exclusiva de artistas homens, brancos, reconhecidos pelo sistema, frequentados majoritariamente por homens, brancos e ricos. Partindo do entendimento de que os museus não somente preservam o passado, mas sobretudo, apresentam maneiras de ver o mundo, ao legitimar, naturalizar e ordenar culturas e identidades, o Museu Nami é uma proposta aberta, de circulação e transformação ininterruptas, promovendo e fortalecendo o vínculo entre sujeitos (artistas, moradorxs, visitantes), suas histórias e suas (sobre)vivências. Dentro desta perspectiva, as instituições museológicas tradicionais passam a ser encaradas não mais como provedoras de recursos epistêmicos e exportadoras de modelos organizacionais, mas como uma esfera de análise.

Dando continuidade às atividades do Museu, a artista Marcela Cantuária foi convidada para desenvolver uma obra em um dos muros da Tavares Bastos. Sua pesquisa é embasada por um pensamento histórico-filosófico que tem consonância direta com as propostas da Rede Nami, uma vez que suas pinturas têm referenciais fortes do feminismo, da luta de classes, da militância e dos espaços e lógicas urbano-capitalistas na atualidade.

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Cantuária desenvolve uma poética que leva em consideração sua experiência pessoal enquanto mulher artista no Rio de Janeiro em conexão com a trajetória de figuras históricas e movimentos sociais. Suas obras são marcadas por uma liberdade pictórica singular e por uma manipulação cromática gritante. O mural que artista desenvolveu para o projeto é um híbrido entre grafite e pintura, no qual spray e pincel resolvem demandas diferentes do trabalho, resultando numa estética plural e pulsante.

A concepção de um trabalho no espaço urbano faz com que artista e obra tomem contato imediato com o público. São estabelecidas negociações simbólicas e afetivas: as/os moradorxs se relacionam de modo pessoal com o que está sendo feito, no ato da produção, e o/a artista é convocado a responder prontamente sobre suas pesquisas e intenções. A lógica da troca é intrínseca à arte feita na rua. Sendo assim, ao convidar artistas para ocuparem os muros das Tavares Bastos, o Museu Nami estabelece um fluxo de escuta e convivência com a comunidade.  

A obra de Marcela Cantuária escancara o “mito das três raças” como uma visão simplista e biologizante do processo colonizador brasileiro. A artista escolheu retratar uma criança Sem Terrinha, uma indígena Pataxó e Matheusa Passareli – artista ativista negra e não-binária, brutalmente assassinada em 2018. Ao atualizar os rostos marginalizados e dizimados do nosso país, Cantuária denuncia que a colonização violenta iniciada pelos portugueses continua em pleno exercício, principalmente, sob o mandato de um governo fascista empenhado em acabar com os poucos direitos garantidos até aqui pelas populações negras, indígenas, LGBTQI+, pelas mulheres e pelos movimentos sociais de luta por terras e moradia. Portanto, a opção por estes três protagonistas, tem caráter interseccional e reflete a inseparabilidade estrutural entre racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado. São corpos perseguidos como alvos, desautorizados de existência. Desse modo, podemos encarar o mural de Cantuária como uma pintura encarnada.

Outro conceito que perpassa a obra é a ideia de posse. A luta pela garantia da posse sob nossos corpos: sexualidades e identidades de gênero; a posse sob nossa cultura: liberdade para cunhar diferentes modos de vida, para manifestar diferentes desejos, fés, religiões e saberes; a posse das nossas terras: garantia de seu uso, da distribuição das suas riquezas e da sua preservação. Neste sentindo, a noção de posse não está associada à de propriedade privada, mas à instauração de um sistema baseado no respeito e garantia das liberdades individuais e dos direitos sociais.

A pintura é um amanhecer: o movimento temporal que vai da escuridão para as cores mais vivas e que anuncia um novo dia. Corajosa, essa uma obra que grita: “venceremos!”. Não por acaso, o mural é inaugurado no dia em que Matheusa Passareli completaria 22 anos. O recado está dado: “corpos estranhos, presentes!”. A imagem e a memória de Theusa precisam ser homenageadas, multiplicadas e mantidas vivas. E o Museu Nami está comprometido com o direito à visibilidade e à memória. Vida longa!     

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ludmilla

 

Ludimilla Fonseca é jornalista pela UFJF (MG) e mestranda em História e Crítica da Arte na UFRJ. Curadora e produtora independente, escreve regularmente para as revistas Desvio, Híbrida e O Fermento”.

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