Camila Vieira Crítica semanal

O que há com o Brasil?

O que há com o Brasil que pretensamente conhecíamos? Será que ele morreu no desastre de Mariana, ou levou quatro tiros da milícia, igualmente à Marielle? O que aconteceu com a imagem alegre daquele Brasil colorido, cheio de sabedoria popular e com vontades de ser grande, um gigante acordado? O que aconteceu com o Brasil depois que o fascismo tomou as casas, alimentado pelo ódio televisivo a um dos poucos partidos que realmente fizeram alguma coisa concernente à distribuição de renda e incentivo o investimento no país? Onde foi para o Brasil que pensávamos conhecer? Se esconde nas colinas de barro que se amontoam em Brumadinho, por causa do lucro privatizado e da tragédia socializada pela mão invisível que rege este Estado, que, como disse Renato Russo, “não é nação”? Talvez nós nos tenhamos pautado numa visão farsesca do Brasil. Positivamente criada para agradar turistas, esquecendo-nos de nossas mazelas e nos deixando influenciar por uma lente de otimismo que nunca foi equivalente à história triste e sangrenta de nosso pobre-rico país. Explorado à exaustão,por uma elite inculta e cleptomaníaca, as distâncias sociais são a reprodução fiel de um sistema de castas.

Uma coisa, porém, é certa: deixamos de ser o país alegre que fomos porque o puro mal eleito a presidente não deixa mentir que há, sim , uma verve sanguinária que surge de um evolta não pensada. O povo elegeu o antipovo, o político mais mesquinho, corrupto e inculto que se poderia encontrar nos esgotos da política brasileira. O brasileiro, um uma parte dele, elegeu aquilo que mais detesta na política, e isso é caso urgente de autoavaliação e internação psiquiátrica. É uma síndrome de estocolmo que não acaba, acumulada por uma depressão profunda e uma vontade suicida, alimentada por delírios vindos diretamente de correntes de whatsapp. Quando foi que o povo quis a mentira? o fanatismo? o ódio enquanto condutor dessa terra vermelha, que arde como brasa? É o cansaço que nos fez jogar tudo para o alto e aceitar essa terra de ninguém enquanto terra arrasada?O que há com os que comemoram o exílio de deputados eleitos, a morte de representantes do povo? o que há com o brasileiro, ou com parte dele?O que há com esse corpo?

Resistir é uma palavra que vem sendo esvaziada, concomitantemente carcomida pela realidade corrosiva que os mais larápios bandidos nos apresentam diariamente, fugindo das coletivas de imprensa e arrotando mentiras para encobrir a falta de caráter já tão evidente. Seria o brasileiro, então, o espelho deste mau caratismo? Não, definitivamente não todo. Então o que há com esse Brasil desconhecido pelos próprios brasileiros? O que há com essa nação machucada pelas guerras civis, pela escravidão, pelo genocídio indígena? O que há? A arte florescerá desta mata encoberta pelos resíduos de minério. Há de ser o seu destino, porque não há mais o que fazer além do que for estritamente necessário. Não há mais espaço apenas à sobrevivência, a luta real, corpórea, se aproxima. O rei está nú e Deus nos deu as costas. Ou assumimos o manche deste navio descontrolado, ou afundaremos nesse mar de desgraça que nos assola desde o império. Como tenho dito, antes da invasão portuguesa foi outro o nosso nome. Resgatemos a essência ou morreremos diante das gargalhadas dos vilões. Avante. Não há mais nada a perder.

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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