Crítica semanal Gabriela Manfredini

Arte pública como saída de emergência para a popularização da arte no Brasil

É sabido que metade da população brasileira não realiza nenhum programa cultural. Estima-se que 70% da população nunca foi a uma exposição de arte ou um museu. Quanto mais alta a classe social, mais interesse em arte. Os pertencentes às classes superiores, muitas vezes preferem visitar o Louvre ao Museu Nacional. Segundo dados de 2017, foram 289 mil brasileiros no Louvre contra 192 mil no museu carioca. Muitos brasileiros passeiam no cemitério da Recoleta em Buenos Aires, mas nunca entraram no cemitério da Consolação, tão bonito quanto e com inúmeras obras de arte no seu interior. Seria uma explicação o desdém do brasileiro com seu próprio país e sua cultura? Ou a carência de obras públicas?

As primeiras manifestações artísticas em espaço público no Brasil se iniciaram na década de 1950 e foram elaboradas por Flávio de Carvalho, Hélio Oiticica e Artur Barrio. Os artistas mesmo vinculados à instituição, passam a realizar seus trabalhos no ambiente externo às galerias de arte e museus. O experimentalismo no Brasil das décadas de 1960 e 1970 significou o afastamento dos códigos e expectativas formais até então ditadas pelo circuito museológico. Assim, o artista sai da galeria rumo à cidade e se depara com a experiência cotidiana.

As manifestações ambientais de Hélio Oiticica (1937 – 1980), com suas capas, estandartes, tendas, parangolés, uma sala de sinuca e Tropicália podem ser tomadas como exemplos de produção artística que radicalizou a cena artística. “Museu é o mundo” disse ele na época.

No mesmo período, o artista ampliou seus meios e começou a incorporar novas referências como a ciência, a biologia, a construção, a iluminação, a decoração, o som, a moda, o cinema, os computadores etc. Uma saída para o ingresso das artes no espaço público foi intermediada pela arquitetura. Ambas, arte e arquitetura, tiveram os seus limites diluídos e seus objetivos e atitudes convergiram de forma determinante.

Hoje, São Paulo é mundialmente conhecida como a capital do graffiti, lugares como o Beco do Batman são bastante visitados por turistas, além de outros murais “famosos” no Minhocão, Avenida Paulista e Faria Lima. O metrô de São Paulo possui quase uma centena de obras de arte dentro das estações de artistas como Tomie Ohtake, Alfredo Ceschiatti, Renina Katz e Bené Fonteles. Para Radha Abramo, que durante anos foi uma espécie de curadora do projeto Arte no Metrô, a disponibilização de obras de arte para milhares de usuários do metrô resgata o sonho utópico do intelectual inglês John Ruskin de levar a arte até o povo, em função de seu inegável potencial educador. Entende Radha que o homem moderno é caracterizado pela percepção fragmentada das coisas e que essa fragmentação tem suas origens na aceleração da vida. E acrescenta que, normalmente “o fruidor não para diante do painel do metrô; movimentando-se no percurso convencional que o leva ao trem, vai acumulando formas, cores e linhas que depois se arranjam mentalmente em correspondência com a obra vista. Com essa atitude, ele soma ao anterior prazer de admirar concretamente a obra, o prazer maior de recriá-la abstratamente na memória”. Em Brasília temos trabalhos incríveis do Athos Bulcão no Parque da Cidade, na Igrejinha 307 sul e no Teatro Nacional. No Rio, destacam-se a Escadaria Selarón e as famosas estátuas de Tom Jobim, Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector.

Respondendo as perguntas do primeiro parágrafo: nós brasileiros não valorizamos nossa própria cultura o bastante. E sim, a arte pública do país é insuficiente.

A arte pública no Brasil ainda é fraca, mas poderia trazer interesse e conhecimento para uma parcela da população que não dá a devida importância para as artes plásticas. É possível também tornar bairros e a vida de seus moradores mais agradáveis a partir de obras e iniciativas artísticas. Um bom exemplo disso é o bairro Las Palmitas em Pachuca no México que teve 200 fachadas de casas pintadas de forma colorida e inusitada em 2015. A arte pública também aprofunda as conexões estabelecidas pelo artista para além das paredes brancas e elitistas, dando assim mais liberdade e independência na comunicação com o público. Acima de tudo, as relações criadas entre artista-público formam uma sociedade mais consciente e empática.

gabriela

 

GABRIELA MANFREDINI é uma artista emergente, designer e ilustradora residente em São Paulo. Interessa-se pelo universo artístico desde criança. Seu trabalho é principalmente envolvido por temas como conexão, encontros e empatia.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s