Crítica semanal Daniele Machado

O inimigo em comum

As estratégias políticas de formação de rebanho na contemporaneidade não diferem tanto da história da humanidade marcada pelas três grandes religiões monoteístas: cristianismo, judaísmo e islamismo. O deus invisível que tudo vê e julga é o único caminho da verdade. No lado oposto estão todos aqueles que não seguem essa verdade e que sofrerão graves punições por essa opção. Entre muitas variáveis sobre como explicar os motivos pelos quais as pessoas não seguem um deus tão maravilhoso e verdadeiro e como seriam tais punições, as estratégias de operação da imagem, especialmente no cristianismo, foram bem incorporadas pelo Estado na contemporaneidade, como é objeto de estudo dos filósofos Marie Jose Mondzain e Giorgio Agamben, nos respectivos livros Imagem, ícone, economia: as fontes bizantinas do imaginário contemporâneo (Contraponto, 2013) e O Reino e a Glória (Boitempo, 2011).

Com a laicização de muitos países ocidentais a Igreja Católica perdeu seu poder efetivo, mas a operação da imagem, através da qual o poder era mantido, sobreviveu e seguem praticadas na contemporaneidade, tendo os elementos visuais de comunicação como a propaganda, a TV, os jornais, as revistas, a internet, as redes sociais, os memes, tem intensificado os processos sobre como isso se dissemina. Apesar da laicização, o Cristianismo se renova como quarto poder no Brasil: representando a Bíblia, surpreendentemente, forma uma única bancada no Congresso junto aos da Bala e do Boi (contrariando aos ensinos de Jesus Cristo, a quem dizem seguir); estão, cada vez mais, obcecados em perseguir os direitos das mulheres; e a igreja mais poderosa de todas do grupo neopentecostal, a Igreja Universal, conseguiu eleger um prefeito, em uma das maiores cidades do país e tem o segundo canal de televisão mais visto do Brasil, que também está à serviço do presidente eleito, assegurando que ele e seus cúmplices possam dar entrevistas sem serem incomodados por perguntas indesejadas.

O ponto que eu gostaria de destacar nessa operação da imagem é a formação da identidade a partir do outro. A identidade coletiva que se forma a partir do inimigo em comum. A estratégia utilizada pelo Império Romano contra as manifestações do diabo a partir dos pagãos, das bruxas; utilizada por Hitler contra o judeus, ciganos, gays; utilizada pelos EUA contra os comunistas, terroristas; utilizada por Bolsonaro contra tudo que ele pode aglomerar como petista. É claro que na História já foram mais do que atestados os reais motivos das perseguições como estratégias de discurso e que foram práticas de formação de rebanho, mas o ponto a que quero chegar é outro.

Já falei em outros textos aqui sobre o impacto no Brasil da coincidência do fim da ditadura civil-militar de 1964 com o fim da URSS. Os duelos direita (a favor do golpe no Brasil / a favor dos EUA na guerra fria) e esquerda (contra o golpe no Brasil / contra os EUA na guerra fria) eram reduzidos ao posicionamento em relação às hegemonias. Assim, o que se seguiu foram diversos “loteamentos” econômicos e sociais do que se chamada como esquerda no período anterior. Não se tratava de ser favor das lutas dos menos favorecidos e representados politicamente, mas apenas da liberdade de pensamento e expressão. Daí tantos casos de referências de “esquerda” durante o golpe atuarem, em seguida, contra os direitos dos trabalhadores, das mulheres, dos negros, dos não-héteros…

Também não se tratou de que após esse período a liberdade de pensamento e expressão foi possível. Os arquivos militares nunca foram liberados, os esforços das Comissões da Verdade foram impedidos de continuar diante da extensão de crimes de Estado ainda por serem avaliados, a discussão sobre punição sobre os agentes que realizaram esses crimes nunca aconteceu, as discussões sobre direitos das mulheres sobre o seu próprio corpo nunca avançaram e, na verdade, correm riscos de retrocederem, etc.

Por fim, havia um inimigo em comum a essa aglomeração a que se chamava esquerda e era o fim a ser combatido, o que a unificava. Talvez o atual inimigo em comum, que vem tomando cada vez mais forma e vem cada vez mais ameaçando muito além dos grupos socioeconômicos que nunca deixaram de sofrer riscos pela sua existência, vá nos unificar novamente. As perguntas que ficam são:

Quanto tempo irá demorar para nos organizarmos? Talvez o tempo em que as pessoas com privilégio vejam como alternativa para sobreviver deixar o Brasil.

O que virá depois? Faremos essa organização funcionar para que as negligências dessas décadas pós ditadura não se repitam?

Viva as Escolas de Samba que vão declarar resistência mais uma vez esse ano na Sapucaí! Viva Mangueira minha escola querida! E viva Salgueiro!

dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação O método destrutivo e as artes construtivas latino-americanas, onde investiga relações de memória, trauma e arte no deslocamento da materialidade no relevo da cidade do Rio de Janeiro, a partir de destruições, em especial, incêndio de 1978 no MAM-RJ. É Diretora Geral da Revista Desvio.

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