Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Notas Olfativas 03

Assim como as madeleines de Proust abriram um verdadeiro portal de lembranças da infância, os cheiros geram sentimentos e reações diversas. Cada vez mais, artistas têm envolvido (intencionalmente) um sentido muito singular em sua prática – o do cheiro. Não que as experiências envolvendo o olfato no campo das artes sejam recentes. De certo, arte e odor se conectam desde o princípio da historiografia. Porém, o registro, a sistematização e o desenvolvimento de um léxico (além de um arcabouço teórico) que visa dar conta dessas experiências é mais recente. Novos campos têm sido abertos para a investigação do potencial olfativo da nossa percepção estética, questionando qual é o papel dos cheiros nas artes e o que acontece quando o nosso nariz se torna o vetor principal de nossa experiência artística, além de outras indagações ligadas às nossas sensações e emoções.

Por meio de abordagens inovadoras e transdisciplinares, artistas estão investigando a dinâmica única desse sistema de percepção para indagar, provocar e tornar visível, conhecimentos e qualidades sobre as relações entre humanos, natureza, cultura e sociedade. Há inúmeras obras provocativas explorando as conexões entre as complexidades dos cheiros, a percepção e a memória.

As proposições de artistas que estão motivadxs a se conectar com os narizes de seus/suas espectadores são muito diversificadas. Alguns se apoiam em pesquisas científicas, expandindo amplamente o entendimento sobre os fenômenos olfativos, introduzindo novas ideias sobre os cheiros como meio/mídia/suporte. Outrxs artistas desempenham papéis importantes nas investigações sensoriais, explorando os aspectos socioculturais dos odores e a percepção deles, desenvolvendo trabalhos que vão desde a criação de vastas bibliotecas e coleções, até experiências públicas com aromas, fragrâncias e matérias-primas orgânicas. Insisto, inclusive, no conceito de “experiência” (aqui utilizado sem nenhum rigor teórico) como contraponto à ideia de “obra/objeto”. Porque (assim como ocorre na arte relacional, na performance, etc.) ainda que possuam algum nível de fisicalidade dentro dos espaços expositivos, estamos falando em proposições artísticas que são efêmeras e só existem na presença de fruidorxs.

Prematuramente concluindo, acredito que o desenvolvimento de estudos sobre as obras que envolvem dimensões olfativas pode contribuir para o crescimento do campo das artes, bem como para o próprio âmbito das investigações sobre os sentidos, já que viabiliza a exploração de aspectos variados da experiência humana, incluindo as dimensões biológicas, ideológicas, culturais e políticas da formação da consciência artística. A diversidade de áreas de pesquisa que as proposições olfativas englobam fazem delas um campo promissor de experimentação artística, curatorial e até mesmo educacional, conduzindo a uma nova dimensão crítica e histórica.

 

ludmilla

 

Ludimilla Fonseca é jornalista pela UFJF (MG) e mestranda em História e Crítica da Arte na UFRJ. Curadora e produtora independente, escreve regularmente para as revistas Desvio, Híbrida e O Fermento”.

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