Camila Vieira Crítica semanal

A simbologia mística nas manifestações de rua

A partir de 2013, a sociedade brasileira presenciou uma mudança categórica a respeito dos modos, motivações e contextos nos quais e para os quais determinadas manifestações ocorrem, pois, pela primeira vez, explodiram-se, concomitantemente, protestos populares aglutinados em torno de insatisfações individuais e de grupos, não necessariamente demarcados e bem caracterizados, vindos dos mais diversos espectros políticos, credos, gêneros e estratos sociais. Sem experiência anterior com protestos de ruas, os novos militantes encenavam, então, os atos aos quais, de alguma maneira, poderiam aludir a essa união de massas: por isso, foi comum ver pessoas soltando rojões, como nas partidas de futebol, bebendo, vestindo camisas da seleção, – prelúdio das manifestações de 2015-, entre outra série de atitudes que militantes de longa data jamais adotariam, por se tratar de um território – as ruas – comumente hostil às reivindicações feitas pelas camadas populares[1]. O que interessa explorar, deste contexto, porém, é o outro lado das manifestações de rua: os grupos que, portando flores, tambores, e fazendo cirandas, evocam a mística dos protestos populares pautados pela não-violência e pela prática da comunicação grupal libertadora. Doutrinas largamente difundidas entre as Comunidades Eclesiais de Base, por meio da Teologia da libertação.

No texto “Teologia da Libertação, Mística e MST: O Papel da Comunicação Grupal Libertadora na Organização Política do Movimento”, a pesquisadora Márcia Vidal Nunes nos convida a observar como a prática da Teologia da LIbertação, conjugada a uma problemática da posse da Terra e do direito ao plantio para a sobrevivência, trouxe aos camponeses uma “mística”, um embasamento teológico fomentado na fé e nos mitos, que serve como ânimo para luta pela posse de terras. Através da ação das comunidades eclesiais de base, a Igreja Católica, num âmbito progressista, integrava “ elementos de reflexão, de arregimentação para a luta”, segundo a pesquisadora, portanto, esta “mística está relacionada ao cultivo da memória, resgatando experiências históricas importantes para o movimento, e à dimensão cultural, que projeta a imagem do MST através de seus símbolos.[2] A mística, portanto, é o invólucro que detém o conhecimento comunitário, que, transmitido de gerações a gerações, propõe uma intervenção no mundo real, através de uma prática originada nos exemplos proclamados pela literatura bíblica. A rememoração de uma prática é o ponto-chave para pensarmos a respeito das manifestações festivas ao longo da história recente brasileira.

Uma vez que o sincretismo cultural não trouxe ao povo uma perspectiva apenas cristianizada, mas enlaça práticas vindas de outros continentes, além do europeu, surgiram no contexto social ações amálgamas, aleijadas de seus signos grupais, e que, portanto, perdem o caráter cerimonioso para dar vez a uma teatralização vazia de sentido e autorreferente. O homem moderno, deste modo, ao manifestar festivamente, pode não estar atento aos símbolos que performa nas ruas ou não estar plenamente consciente da mística e da memória que aquele rio em questão carrega. Tanto a “Teologia da Libertação” quanto o “Catolicismo cósmico”[3], estão em congruência com a leitura dos momentos históricos e dos ensinamentos do Messias católico, para lograr à população a Terra prometida e, a partir da ação concreta, no mundo profano, atingir a igualdade entre os homens e o desfrute de uma vivência pacífica. Neste ínterim, os mitos e a mística que configuram essa luta pela terra passam pela rememoração constante dos tempos iniciais e da HIstória primordial, além de guiar as ações que regem a manifestação grupal. O que verifico, contudo, a partir das leituras efetuadas, é que não é possível determinar se, em alguma instância, nas manifestações de rua de 2013, houve um real envolvimento simbólico com o Mito,- que profere o ânimo através da rememoração de uma prática sagrada-, ou se as cirandas, as rodas de dança, a música e as bebidas com os amigos se tratam mais de uma teatralização simbólica de um ritual não compreendido, culminando num evento mais lúdico do que político.

[1] Conf. MOSCOVICH, Marília. Está tudo tão estranho, e não é à toa.Disponível em:

View at Medium.com

[2] Nunes, Márcia Vidal. Teologia da Libertação, Mística e MST:O Papel da Comunicação Grupal

Libertadora na Organização Política do Movimento. Imprensa Universitária: Fortaleza, 2014.p.35

[3]  ELIADE, Mircea. Mito e realidade. Perspectiva:São Paulo, 1972: 14.

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

 

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