Crítica semanal Gabriela Manfredini

Janeiro Vermelho

Parece que só quando desastres acontecem, as autoridades e grande parte da população se lembram das minorias. Com o horrível acidente em Brumadinho na semana passada, a aldeia indígena Naô Xohã recebeu inúmeras visitas. Funai, Ibama e Sesai estiveram presentes e inúmeros curiosos. Mas até quando vamos preferir remediar ao invés de prevenir?

Recentemente vem se falando muito da luta das minorias, dos direitos LGBTQ+, da igualdade racial e de gêneros. Mas ainda pouco se fala dos direitos indígenas, povos originários do país muito antes de Pedro Álvares Cabral. Talvez porque 50% da população se declare negra, enquanto apenas 896 mil são considerados índios. Eles são 307 povos com 276 línguas indígenas. Do total, 300 mil indígenas vivem em zonas urbanas. Hoje muitos deles cursam universidades, usam celular e dirigem um carro. A cultura se movimenta e se atualiza, e estes fatos não afastam sua ancestralidade, tradições e costumes.

O mês de janeiro, virou #JaneiroVermelho contra o genocídio e a retirada de direitos indígenas. Neste mês pelo menos seis invasões foram confirmadas em territórios dos povos tradicionais em diferentes regiões do país. “Sangue Indígena, Nenhuma Gota a Mais”. Também houve remoção da Funai do Ministério da Justiça e inclusão dele no Ministério da Agricultura e Pecuária, medida completamente contraditória.

Estima-se que quase 60% do território brasileiro ainda seja coberto por florestas e vegetações nativas. Esse número se deve em grande parte aos territórios demarcados indígenas, que conservam 30% da biodiversidade brasileira. O resto do nosso território foi tomado pelas cidades, pecuária e agricultura. Onde tem a presença indígena, está verde; onde não tem, tem gado.

Em 1982, o primeiro deputado estadual índio foi eleito, Mário Juruna. Na época tinha apoio de Brizola e Darcy Ribeiro. Ficou conhecido por levar sempre consigo um gravador para “registrar a palavra do homem branco”. Trinta e sete anos depois pouca coisa melhorou.

Em 2018, Célio Turino, desenvolveu um mandato cidadanista pelo PSOL que concorreu as eleições. O mandato compartilhado e comunitário atua junto a co-deputados, entre eles Cristine Takuá, representando os povos indígenas. Também participaram estudantes, militantes da periferia e da população negra, ambientalistas e agroecologistas. “Acredito que o povo deve mandar e o governo obedecer”, explicou Turino, durante o evento. “As pessoas podem inverter a lógica de que a política deve ser feita exclusivamente por ‘autoridades’ e, para isso, é importante que o povo ocupe a política e tome para si a construção do seu destino.” O projeto é inovador e admirável. Mas enquanto Tiririca e Alexandre Frota ficaram entre os mais votados em São Paulo, o mandato Cidadanista não conseguiu se eleger.

No entanto, pela primeira vez, uma mulher indígena conseguiu uma vaga na Câmara dos Deputados – em mais de 190 anos de existência da Casa. A candidata Joenia Batista de Carvalho, a Joenia Wapichana, da Rede, foi eleita por Roraima com 8.491 votos. Ela é a única indígena eleita entre os cargos de 2018.

A bancada evangélica – e ruralista – que está no poder hoje, reproduz os mesmos feitos quando os colonizadores aqui chegaram. Massacram e catequizam os indígenas – principalmente os pajés e xamãs – de forma violenta, alegando uma ligação com o diabo. O número de índios evangélicos aumenta exponencialmente. Peça de teatro e vivência em réplica de aldeia Yanomami estão entre as estratégias usadas por ONGs para atrair voluntários para a catequização dos grupos. Estas práticas demonizam saberes milenares e buscam desaculturar comunidades. Se você não sabe do que eu estou falando, recomendo assistir ao documentário “Ex-Pajé”, premiado no Festival de Berlim e na Abraccine. Muitos pajés são grandes filósofos, mas que não são levados em consideração porque não tem mestrado, publicações e toda sua sabedoria é passada oralmente de geração em geração.

Dizem que os índios atrapalham o progresso e o desenvolvimento, que eles já possuem terras demais. O indígena não é um empecilho ao desenvolvimento econômico de um país, ele pode ser a solução. “Índio é terra, não dá para separar. E não é porque índio é terra que ele quer terra. Significa que ele é terra. O espírito dele é a terra”, fala Daniel Munduruku durante a 32ª Bienal. Isso não significa que eles querem ser donos das terras, pois toda terra indígena é patrimônio da União, portanto é do brasileiro.

Enquanto a Vale, JBS, produtores de soja estão enriquecendo e precisando de cada vez mais terra, grupos indígenas são obrigados a viver nas margens de rodovias ou em reservas muito pequenas.

A ganância e o consumismo do homem branco nos levaram a uma situação insustentável. O homem conseguiu chegar a lua, mas não consegue desafogar o próprio planeta do lixo e da poluição. Temos muito o que aprender com os povos originários, principalmente a viver em equilíbrio com a natureza e com os animais. Mas para isso, teremos que deixar de lado o ar condicionado e colocar os pés na terra. O indígena faz muito mais esforço para entender o Brasil, do que o Brasil para entender os indígenas. “Fico preocupado é se os brancos vão resistir. Nós estamos resistindo há 500 anos” Ailton Krenak.

gabriela

 

GABRIELA MANFREDINI é uma artista emergente, designer e ilustradora residente em São Paulo. Interessa-se pelo universo artístico desde criança. Seu trabalho é principalmente envolvido por temas como conexão, encontros e empatia.

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