Crítica semanal Daniele Machado

A ARTE NÃO PODE SE CALAR

“A arte não pode se calar”

Foi assim que o presidente da escola de samba Acadêmicos do Sossego respondeu às dúvidas sobre se a escultura que homenageia o prefeito Marcelo Crivella – que vem vestido de “diabo” – iria entrar ou não na Av. Marquês de Sapucaí. Desde que uma foto da escultura vazou nas redes sociais, já se disse que “qualquer semelhança era mera coincidência”. Após reunião do conselho da escola, afirmou-se que seria ele mesmo. Em seguida, por meio de nota, Wallace Palhares voltou novamente atrás sobre a indicação, mas manteve a decisão de que a escultura participará do desfile.

É sabido que o circuito bem respeitado das artes torce o nariz para o carnaval, assim como o design, a ilustração, a cenografia, o artesanato, os quadrinhos… Os produtos são bem acessados pela população e isso contribui para a torcida de nariz… Quanto mais consumo e circulação, menos valor de mercado, menos especial…

Há alguns meses uma curadora falava em uma mesa de debates sobre estimar que mais da metade dos profissionais das artes serem alinhados aos posicionamentos políticos de esquerda. No entanto, a torcida de nariz se mantem à essas manifestações ditas “artes menores”. E, de outro lado, não é novidade o posicionamento político explícito do carnaval, que talvez seja a manifestação artística mais abrangente do país – contando a transmissão televisa, que ainda é poderosa fora das grandes cidades.

Então, fica curioso o desencontro entre o discurso que alguns fazem na direção de “deselitizar” as artes – porque boa parte se diz de esquerda, mas mantem seus esforços para que a arte se mantenha onde ela sempre esteve – e as práticas no gesto da torcida de nariz… Mas que, vez ou outra, tem suas aceitações como na exposição Leandro Vieira, carnavalesco da Mangueira, no Paço Imperial (2017) ou a quase mitológica ida de Helio Oiticica ao morro da Mangueira.

O presidente da Acadêmicos do Sossego deu o recado e sem dúvida colocou o carnaval como arte. Se temos um trabalho de vanguarda, que toca no encontro característico na contemporaneidade da arte com ética e política, se trata do carnaval.

Por fim, o enredo que se intitula “Não se meta com a minha fé, acredito em quem eu quiser“, tem a escultura que surge em meio a um terreiro quebrado que seria de uma religião de matriz africana. O diabo associado mal que Crivella representa beira o desrespeito com quem atribui fé a essa figura. Por outro lado, em um país em que a tentativa de laicidade tem sido cada vez mais frustrada com a tomada dos poderes legislativo e executivo pelas igrejas evangélicas, em especial, neopentecostais, a representação do diabo foi um tiro em cheio. Arte panfletária? Sim. Tão necessária quanto outras possibilidades.

dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação O método destrutivo e as artes construtivas latino-americanas, onde investiga relações de memória, trauma e arte no deslocamento da materialidade no relevo da cidade do Rio de Janeiro, a partir de destruições, em especial, incêndio de 1978 no MAM-RJ. É Diretora Geral da Revista Desvio.

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