Camila Vieira Crítica semanal

É preciso curar o luto

Um mês de governo e o Brasil se encontra em pleno caos social e econômico. Tudo o que tinha para dar errado está dando, não sem aviso, com perdas estruturais e humanas. Para o Congresso, as indicações técnicas do governo passam por um crivo único, no qual não importa a real formação do sujeito -visto a ministra que uma vez se declarou Mestre em Direito Constitucional e Educação, e perguntada sobre o nome da Universidade, desconversou e disse ter sido formada por Deus -, apenas a inclinação ideológica à extrema direita, além da criatividade para formular teorias conspiratórias e expressá-las sem nenhum constrangimento. Brumadinho podia ter sido evitado, assim como a morte dos meninos do Flamengo também poderia, se a iniciativa privada colocasse a vida acima dos lucros, mas não é assim que o agressivo capitalismo à brasileira funciona. A direita brasileira conseguiu raptar as esperanças que os brasileiros tinham de que o país finalmente melhorasse, agora, estamos vendo na prática que a tese fraca, defendida por MBL’s e afins, é só um casuísmo para eleger seus quadros à política e torná-los funcionários públicos de altíssimo salário e periculosidade.

A cada dois passos, voltamos dez, não parece? E é necessário rememorarmos constantemente que esse projeto, criado pelos ativistas do lucro, não passe em branco pela história do país, porque ela é a face mais visível da tragédia anunciada que se tornou o Brasil, esta nação que insiste em ser uma máquina de matar pobres, negros, mulheres e gays. Que o retrocesso nos lembre que os direitos não são garantidos: precisamos constantemente lutar por eles e mobilizar a população que sofrerá na pele a falta deles. Mobilização é a palavra chave, o porém é como fazê-la diante do braço forte de um Estado Totalitário, que comanda uma democracia de fachada. Está difícil, porém a História é maior do que nós, que temos a vida tão passageira. Está cada vez mais difícil não ceder ao pessimismo e deixar a animosidade de lado, mas não há alternativa, visto que somos esclarecidos a respeito do prejuízo que é deixar o galinheiro ser guardado pelas raposas. A Arte pode ser um bom caminho, talvez o mais necessário, para reascender essa chama da esperança e mostrar que há luz no fim deste túnel do tempo de trevas, no entanto, hoje é preciso curar o luto. Muitas perdas. Perdas demais.

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

 

 

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