Crítica semanal Gabriela Manfredini

Onde então estão se divertindo os negros?

O filme de Wagner Moura estreou no Festival de Berlim. O filme intitulado Marighella, conta a história do homem que dá nome a obra, que foi um guerrilheiro que lutou contra a ditadura militar brasileira. O filme é protagonizado por Seu Jorge e no dia da estreia, Wagner levou a placa da Rua Marielle Franco ao evento. A estreia do filme no Brasil ocorrerá numa ocupação do MTST.

“Marighella, negro, revolucionário, foi assassinado por forças do Estado em 1969 no seu carro e, 50 anos mais tarde, uma vereadora negra morreu da mesma forma nas mãos, provavelmente, de agentes do Estado” disse o diretor. E continua: “A violência do Estado brasileiro cometida contra revolucionários nos anos 60 é a mesma cometida nas favelas contra os negros. É a mesma coisa. Estão torturando, matando. A polícia no Brasil não é treinada para proteger os cidadãos, é treinada para proteger o Estado. E o Estado escolhe quem são os seus inimigos.”

No mesmo dia, um jovem de 19 anos negro foi morto asfixiado por um segurança do supermercado Extra na Barra da Tijuca. A cena foi filmada e o segurança alega que foi uma tentativa de furto. Sabemos que se fosse um garoto branco o crime não teria ocorrido.

No dia seguinte ao triste episódio, a atriz Elisa Lucinda relembrou sua fala para a exposição Diálogos Ausentes ocorrida no Itaú Cultural em São Paulo “…me confundem com Margareth Menezes, Zezé Motta. Confundem Djavan com Milton Nascimento, como se fosse um bloco. E é porque não veem. Então você entra num restaurante onde só tem branco e não repara isso. E você é gente boa… conheço um monte de gente de esquerda que entra num restaurante, só tem branco, e não percebe isso, que alguma coisa está errada. Se tem territorialidade, tem apartheid.”

Na semana passada ainda houve o episódio da festa com teor racista da diretora da Vogue Brasil, Donata Meirelles, que foi noticiada até pela CNN.  E ainda tem gente que diz que é muito exagero, que o mundo “está ficando chato”. Uma fala típica de quem é privilegiado.

A notícia boa, ainda que tardiamente, é que no sábado, Maju Coutinho, foi a primeira mulher negra a apresentar o Jornal Nacional. Heraldo Pereira, também negro, apresenta o jornal eventualmente desde 2002.

130 anos se passaram desde a Abolição, ou seja, apenas 3 ou 4 gerações. Fomos a última nação a fazer isso. Parte dessa miscigenação foi fruto do estupro de mulheres negras e das mulheres indígenas. Dados revelam que um negro morre a cada 23 minutos no Brasil e quase 70% da população carcerária é negra num país onde 50% da população se declara desta cor.

Ainda há muito o que fazer para que brancos e negros estejam em igualdade perante a sociedade. O que brancos podem fazer? Não compactuar, muito menos incentivar o racismo estrutural deste país. A luta contra o racismo está obviamente aliada a luta de classes. Pela luta de classes podemos começar dividido o que temos. Não esperemos que o outro faça. Tomemos a iniciativa. Sejamos exemplo.

Termino o texto com uma reflexão proposta pela cantora Anelis Assumpção, filha de Itamar: “se observo um grupo reunido numa piscina e digo: quanta gente branca (que carrega todo o privilégio que estamos todos cansados de saber quais são) quero na verdade dizer: onde então estão se divertindo os pretos? onde está o grupo de negros e negras reunidos numa piscina por merecimento construído?”

gabriela

 

GABRIELA MANFREDINI é uma artista emergente, designer e ilustradora residente em São Paulo. Interessa-se pelo universo artístico desde criança. Seu trabalho é principalmente envolvido por temas como conexão, encontros e empatia.

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