Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Sem edital, sem patrocínio, sem recursos

Nutridos pelo cenário político-econômico “desfavorável”, os sistemas de fomento e organização de exposições vêm demandando muita “criatividade” para a manutenção e multiplicação das operações curatoriais e de produção. Se por um lado estamos sempre nos questionando sobre como desenvolver práticas artísticas comprometidas com a realidade na qual estamos inseridos, por outro parece que a pergunta agora é outra: enquanto classe artística, estamos, de fato, inseridos em alguma realidade ou estamos assistindo, mais uma vez, a nossa anulação?  

Curadorias e produções de caráter não-hegemônico, não-tradicional e inclusivo remetem não apenas à característica “experimental” inerente à quebra das “grandes narrativas”, mas também à procura por discursos e ações polifônicas e efetivas que ampliem nossas possibilidades de afronta e superação das limitações impostas pelo contexto de “crise” e pelo cenário sociocultural de espetacularização e pasteurização das exposições institucionais de um lado e, basicamente, a impossibilidade de se fazer projetos independentes de outro. Sinuca de bico. 

Trata-se da falência das políticas públicas para a arte e a cultura no país. Além disso, as condições de concorrer com um projeto são ridiculamente desiguais. Ainda que os editais estabeleçam as mesmas regras para todos – a realidade é que “todos” não são iguais. E este fato compõe a base dos contrastes sociais no circuito artístico: o mascaramento de iniciativas desiguais através de instituições de fomento e regulação que pressupõem igualdade. A própria dimensão projetiva da lógica de editais culturais no Brasil – que a torna alinhada a “planos” de governo, é um mecanismo que fragiliza o setor artístico.  

Sim, somos dependentes de editais. Mas não, é claro que não estamos satisfeitos com isso. Então, para além de fazer “uma crítica a um edital”, estamos, conscientemente, questionando também a estrutura edificante da arte (de)limitada e financiada por meio de editais. Precisamos deles, porque precisamos de trabalho. E precisamos que os editais tenham verba, porque precisamos ser pagos pelo nosso trabalho. Mas parece que, cada vez mais, o nosso trabalho inclui reiterar e brigar pelo óbvio. 

 

Crédito da imagem: Adriano Catenzaro – Juro 2”, 2017. Colagem manual de recortes de documentos, cartões bancários e papel moeda sobre papel. 

ludmilla

Ludimilla Fonseca é jornalista pela UFJF (MG) e mestranda em História e Crítica da Arte na UFRJ. Curadora e produtora independente, escreve regularmente para as revistas Desvio, Híbrida e O Fermento”.

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