Camila Vieira Crítica semanal

Como, porém?

Hoje eu vou falar a respeito do nosso tempo e um pouco mais do que isso, como tratar a respeito de arte pode parecer supérfluo nos tempos atuais. É imperativo que cada um de nós, meros consumidores no sistema capitalista de produção, sejamos criados para aprimorar, pensar, viver e absorver a tecnologia , de modo quase que natural, fazendo parte de inúmeras redes sociais concomitantes e retroalimentadas. o que faço no twitter pode ser visto no Instagram ou no Facebook, posso criar links automaticamente compartilhados entre redes e fomentar uma comunidade de debates no Facebook ou no próprio Youtube, tratando diretamente com o meu interlocutor. A cada dia, um novo desastre, e consequentemente, um espetáculo de horrores interminável que, como eu havia dito num dos textos anteriores, é capaz de nos sequestrar a libido e a sanidade mental. Não dá, Tanta coisa em tão pouco tempo, tão simultaneamente, pode fritar os miolos daqueles que, como eu, se interessam por política e justiça, no sentido amplo da palavra. Talvez o ser humano não tenha sido feito para absorver tanta informação em tão pouco tempo, de modo que a vida basta tanto, que já está demais. Queria eu me debruçar sobre as cores impressionistas e o terror dos expressionistas, discorrer sobre afrescos medievais e civilizações antigas. Mas a todo o momento a vibração do meu celular me recorda de que vivo no ano de 2019 e que meu país está à beira do abismo e , sem esquecer Nietzsche, assevero que definitivamente o abismo pode nos olhar de volta.

Lembro da frase de Ferreira Gullar, que dizia que a arte existe porque a vida não basta: bom, neste exato momento preciso discordar, a vida tectonológica, hiperconectada, nos basta e até demais. Não é novidade que parte da esquerda as notícias que partem dos patetas que assumiram o poder, na esteira do antipetismo, está causando uma convulsão na sociedade, de modo que estamos a beira de um colapso financeiro e diplomático com um dos países que, até então , figurava entre os nossos hermanos. Assumiu a diplomacia brasileira um cara que acredita ser o aquecimento global parte de uma conspiração marxista. Não há quem o faça pensar o contrário porque, do outro lado, existe uma mulher que preside os direitos humanos, se dizendo mestre em direito constitucional e educação, com diploma outorgado pelo Próprio cristo da goiabeira; a mesma entidade pela qual Damares Alves acredita ter tido a autorização de sequestrar uma criança indígena de sua tribo, e passar cerca de 16 anos afirmando ser essa criança sua filha adotiva, mesmo que sem qualquer documentação legal. Nem preciso dizer algo a respeito das crises que assolam o PSL, partido do nosso presidente de de seus três filhos, atolados até o pescoço com esquemas de verbas públicas desviadas e milícia.

Coloco neste argo a dúvida de que seja realmente possível pensar em arte, diante de tanta desmantelação, de tanta maldade, em referência à previdência, e de tanta alienação que parte desse bolo ideológico – de gosto ruim, diga-se de passagem – que assola o país com soluções fáceis para problemas complexos,. Preciso pensar a arte educação neste contexto, mas ela só não basta. Como disse Patti Smith, no livro “Só garotos”, eu não gosto muito de artistas que reproduzam o mundo em que vivem, gosto mais daqueles que o transformam. é essa transformação que me instiga e que me faz estremecer diante da realidade histórica à qual faço parte. Mas como sabê-la se a realidade do cotidiano me sequestra da própria arte? Num mundo tecnológico, no qual tantas imagens são produzidas o tempo todo, de todos os países e culturas, pensar a arte como motor revolucionário e capa de transformação social é cada vez mais desafiador porque, fora da instituição Mercadológica da Arte, tudo pode sê-la. Num país que ameaça acabar de vez com o fomento estatal aos artistas e aos projetos, uma arte desafiadora e capaz de romper do sistema se faz cada vez mais difícil. é preciso recriar e refrear o espetáculo da realidade, para arte renascer. como, porém?

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

 

 

 

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