Crítica semanal Gabriela Manfredini

Espiritual, mas não religioso 

 

Durante as eleições do ano passado, houve um forte conflito entre gerações. Quase sempre pessoas mais jovens inconformadas de verem seus pais e familiares votando no governo de extrema direita.

Vivemos em tempos inquietantes. Ansiedade e depressão são generalizadas. A tecnologia consome nossa atenção nos deixando pouco tempo livre para o que realmente importa. O meio ambiente está sofrendo sob nossa mordomia. Ao mesmo tempo que uma onda conservadora assola o mundo com Trump, Bolsonaro e Brexit, uma geração mais jovem – os Millennials – resistem a estes acontecimentos.

Esses problemas modernos talvez sejam parte da razão pela qual as práticas espirituais antigas estão crescendo. O xamanismo, a bruxaria e o ocultismo estão passando por um reavivamento, especialmente entre os da Geração Y – nascidos entre o começo da década de 80 e a metade da de 90. A frase “espiritual, mas não religioso” tornou-se amplamente usada nos últimos anos por essa geração. Em um estudo feito pela Vice no ano passado entre os Millenials e a geração Z, 80% dos entrevistados disseram que têm um senso de espiritualidade e acreditam em algum tipo de poder cósmico.

Está crescendo a popularidade das músicas de rezo ou canções que incitam Jesus, entidades, amor e evolução. A prática de meditação enfim conquistou espaço no ocidente. “As grandes religiões orientais já sabem disso há 2.500 anos. Mas só recentemente a medicina ocidental começou a se dedicar a entender o impacto que meditar provoca em todo o organismo. E os resultados são impressionantes”, afirma Judson A. Brewer, professor de psiquiatria da Universidade Yale. E há também uma nova geração de benzedeiras e rituais de cura.

Um exemplo é o livro “Mulheres que Correm com os Lobos”, que no ano passado ficou entre os mais vendidos. Entre outras coisas, a autora ressalta a importância da ancestralidade para as mulheres por meio de contos folclóricos e análises psicológicas.

Eu acredito que as pessoas nascidas a partir dos anos 80 estão se tornando uma geração espiritual. Elas são duas vezes mais interessadas em espiritualidade quando comparadas com a faixa etária mais velha, de 65 anos ou mais. As coisas em que eles acreditam incluem reencarnação, vida após a morte e poderes psíquicos.

Hoje em dia, a reverência à ancestralidade não acontece mais apenas como herança de antigas tradições. Ela está sendo reconhecida em partos naturais, jardinagem e Constelações Familiares. Estamos redescobrindo tesouros e experiências de nossos pais, avós e bisavós. Recebemos a carga energética do jeito de pensar, sentir e agir dos nossos antepassados.

No mundo da arte, Hilma Af Klimt, artista dedicada a revelar mensagens do mundo espiritual só foi descoberta recentemente, 70 anos após sua morte. Está recebendo inúmeras exposições nos últimos anos. Hoje, talvez, a sociedade ocidental esteja (um pouco) mais preparada para entender sua arte.

 

gabriela

 

GABRIELA MANFREDINI é uma artista emergente, designer e ilustradora residente em São Paulo. Interessa-se pelo universo artístico desde criança. Seu trabalho é principalmente envolvido por temas como conexão, encontros e empatia.

3 comentários

  1. Muito legal esse quadro que você pintou. Eu incluiria nele os “evangélicos não praticantes”, recentemente considerados nas pesquisas do IBGE e parcela da população em ascensão no país. Tenho por estes um olhar especial, já faz algum tempo, pelo simples ponto: o evangélico praticante eventualmente cumpre os ritos e os mandamentos, como amar ao próximo, pretendendo a salvação de si; já o não praticante guarda os mandamentos sem se importar com os ritos, despreocupado quanto a recompensas no pós-vida e mesmo a salvação. Vejo neste ato desinteressado mais verdade do que nos protocolos religiosos. Como o seu texto bem sugere, um despertar da consciência espiritualizada, num número significativo de mentes, se processa em meio a um mundo frio que é palco de interesses de mercado. A humanidade esconde um grande potencial.

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  2. Os chamados “reavivamentos” religiosos ou espirituais acontecem de tempos em tempo. Não necessariamente acontece no espaço de uma geração X ou Y. Nota-se tal movimente na história do Brasil momentos antes do golpe da República. Quando surgiu o telefone e outros avanços científicos, ao mesmo tempo surgiram inúmeras manifestações de mágicos, curandeiros, místicos entre outros. Há que descobrir qual o princípio ou valor que determina o revival. No caso brasileiro as recente nomenclaturas tem o mesmo significado, seja religioso ou spiritual. Mas a base de eleitores de Bolsonaro são uma força evangélica. Outro nome para a mesma coisa.

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