Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Outro poema escondido

Se conseguisse um trabalho e ganhasse um dinheiro,

iria juntar para comprar uma casa na praia.

Ia economizar, sim.

Ia parar de tomar cerveja, de ver um show toda sexta.

De dormir em colchões e de ir à praia às segundas-feiras.

 

Ia te ligar menos, porque ia cansar mais.

Ia te ligar menos e reclamar mais.

Eventualmente

Ia parar de te ligar.

 

Se com esse dinheiro viesse a certeza de uma mesa feita.

Se viesse companhia para uma ceia.

Se viesse um futuro do qual não gostaria de abrir mão.

 

Queria aquele emprego para não pensar mais.

Chegar em casa e ficar vendo televisão.

Mas queria aquele emprego porque precisava.

A gente sabe que não tem solução para nada.

Mas fica pensando que se rolasse aquela casa na praia…

 

O horóscopo mandou esperar.

O médico mandou remediar.

O caixa do banco mandou sentar.

A senhora no ônibus pediu o lugar.

A conta de telefone ficou por pagar.

 

Mas amanhã, pode acordar a qualquer hora.

Dar uma volta na orla.

Talvez, nem levantar.

 

O dia que tiver um emprego, vai trabalhar só para largar.

O dia que tiver um relacionamento, vai amar só para largar.

O dia que tiver uma casa na praia, ah! Esse dia vai chegar.

 

ludmilla

 

Ludimilla Fonseca é jornalista pela UFJF (MG) e mestranda em História e Crítica da Arte na UFRJ. Curadora e produtora independente, escreve regularmente para as revistas Desvio, Híbrida e O Fermento”.

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