Crítica semanal Vanessa Tangerini

A ponta de um iceberg

O dia 8 de março sempre é seguido de uma série de atividades, organizadas por instituições ou autogeridas, relacionadas à mulher na sociedade. Essa data simbólica além de nos relembrar algumas vitórias e figuras importantes, também reaviva problemáticas que devem seguir sendo discutidas.

O crescimento do(s) movimento(s) feminista(s) nos últimos anos é tão notável quanto o seu efeito empoderador nas mulheres latino-americanas. Essa ascensão traz consigo uma série de mudanças e a necessidade de novos relatos, que já está sendo refletida no circuito contemporâneo da arte. Algumas propostas de grande visibilidade que podemos mencionar são a exposição Mulheres radicais: arte latino-americana, 1960-1985, realizada na Pinacoteca de São Paulo ano passado, e a proposta para este ano do MASP de dedicar seu calendário de exposições ao tema “História das mulheres, histórias feministas”. Diante do atual cenário político é imprescindível que esse tipo de ação suceda já seja em grandes museus, em pequenos espaços ou no espaço público.

E já que mencionamos o cenário político… Vale à pena relembrar a manifestação histórica liderada por mulheres no ano passado. Com uma organização que nasceu através de um grupo no facebook (Mulheres unidas contra Bolsonaro) o ato de repúdio ao então candidato ocupou a rua de várias cidades do Brasil, mas também funcionou como uma forte ferramenta de união e vínculo entre as mulheres do país. O fato é que a maior manifestação realizada contra Bolsonaro foi liderada por mulheres, revelando que essa união é uma das mais “perigosas” porque transcende barreiras de classe, religião e partido, e confirma a afirmação de que “a revolução será feminista”.

Ao mesmo tempo, na Argentina, a luta feminista se apropriou do lenço branco das avós da Plaza de Mayo, tingindo-o de verde para convertê-lo em um símbolo da luta pelo aborto legal, seguro e gratuito. A maré verde chegou, inclusive, até o México. O mais interessante deste caso foi a dimensão que o símbolo tomou no dia a dia: amarrado nas bolsas, nos punhos ou no cabelo das mulheres o lenço verde surge a todo momento em meio ao cinza caótico da cidade. E, talvez, um dos seus efeitos mais potentes seja ver como os estereótipos vão se desvanecendo ao ver na outra algo, acaso, inesperado. O encontro desse símbolo na outra termina revelando uma identidade compartilhada.

Essas manifestações, aparentemente isoladas, compartilham uma mesma raiz oculta. São apenas a ponta de um iceberg: porções visíveis de algo muito maior que ainda repousa oculto, mas que, se surgisse, abarcaria  dimensões inesperadas. A parte oculta desse iceberg talvez seja a provocadora idéia de que a condição de mulher é mais revolucionária que as categorias políticas que o próprio patriarcado criou.

P.S.: E não nos esqueçamos de seguir perguntando quem mandou matar Marielle.

Vanessa Tangerini
Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s