Luiz Guilherme Barbosa

Erro de leitura

Porque fazer crítica é caso de emergência. Por isso começa de repente, e foi assim desde a primeira vez. Era preciso guardar a obra, o texto, a tela, o vídeo. E depois se relendo se descobre: o que se arquivam são as leituras.

As leituras que fazemos e com quem fazemos. Aos 15 anos ganhei de uma tia-avó um livro fundamental, as Memórias póstumas de Brás Cubas. Li mal, mas nunca um livro me transformou tanto. Talvez seja o primeiro livro de artista no Brasil, e o único de Machado de Assis. Por exemplo, uma caricatura do leitor que é também o retrato do crítico:

“Olhai: daqui a setenta anos, um sujeito magro, amarelo, grisalho, que não ama nenhuma outra coisa além dos livros, inclina-se sobre a página anterior, a ver se lhe descobre o despropósito; lê, relê, treslê, desengonça as palavras, saca uma sílaba, depois outra, mais outra e as restantes, examina-as por dentro e por fora, por todos os lados, contra a luz, espaneja-as, esfrega-as no joelho, lava-as, e nada; não acha o despropósito.” 1

A insistência na leitura mudou aquilo que li pela primeira vez. Só muito depois descobri no dicionário que uma tresleitura é uma leitura ao contrário, ou errada. Li mal na primeira vez, sabendo, no entanto, desde então que era preciso ler uma vez, ler outra vez, e ler uma terceira vez, tresler.

O engano, nesse caso, foi criado na língua, como um trocadilho, como quem zomba da norma. Na cena, o “sujeito” lê muitas vezes, talvez três, à cata do despropósito, e nada encontra. Como se Machado produzisse, com seu estilo, aquilo que bell hooks nomeia como “a fala do exílio”, 2 que deforma, usando-a, a norma da língua do conquistador e do opressor. O retrato de Machado não é muito diferente do de um escritor negro que se apropria das leituras ocidentais envenenando a tradição com a imagem que ela teria feito dele, esvaziando-o.

Por isso, diante de cada trabalho a escrever, considerar como criar, com a língua, esse exílio da obra no texto crítico, o possível erro de leitura, quando as máquinas se tornam analfabetas. No texto, ler as poéticas como uma fala, que elas não são. Exercícios de leitura em diálogo e tensão com a timeline, o textão. Nessa coluna, ponho-me a escrever nas próximas semanas sobre as relações entre arte &. Principalmente: & literatura, & política, & cultura digital. Tresescrevendo.

[A imagem que acompanha o texto é um print feito a partir do vídeo “Exposição
‘William Kentridge: Fortuna’ | Flipbook”, do Instituto Moreira Salles, disponível em:
https://youtu.be/nxGrazdl9WY.%5D

1 ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro; Belo
Horizonte: Garnier, 1988. p. 131-132.
2 hooks, bell. A língua: Ensinando novos mundos/novas palavras. Ensinando a transgredir: A
educação como prática da liberdade. Tradução Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: WMF Martins
Fontes, 2013. p. 224.

 

Luiz Guilherme
Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio.

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