Crítica semanal Gabriela Manfredini

DUAS PROPOSIÇÕES SOBRE JODOROWSKY

1- Alejandro Jodorowsky é um diretor de cinema chileno, além de dramaturgo, compositor, mímico, inventor da psicomagia, autor de quadrinhos, graphic novels e de livros sobre espiritualidade e tarô.

Ele dirigiu dez filmes e tem trinta e seis livros publicados. Alcançou fama e status de cult nos anos 70 após John Lennon se apaixonar por seu filme El Topo.

Lançou seu último filme em 2016 com financiamento por crowdfunding. Sobre o assunto, ele comenta: “Durante 20 anos, estive lutando, mendigando, suplicando e me humilhando para conseguir dinheiro para transformar meus sonhos em filmes. Cansado de tantas negativas (“não, não é comercial”).”

Como um senhor de 90 anos com esse currículo incrível, que viveu, experimentou e inventou tantas coisas, que possui reconhecimento e algum tipo de fama não consegue um patrocínio? Até quando a arte vai ser classificada em comercial/conceitual? E tudo o que é conceitual consequentemente não vende?

Se ele não consegue patrocinadores, imagine a dificuldade dos artistas independentes de conseguirem realizar projetos, de expor, de vender e de entender as burocracias de editais… artistas que estão numa linha tênue entre desistir da sua produção por serem ignorados, por não terem dinheiro e por estarem fartos.

Um viva aos artistas independentes!

2- No seu longa Poesia Sem Fim – uma continuação do seu antepenúltimo Dança da Realidade -, há uma cena excepcional na qual Alejandro (o personagem que é o próprio cineasta) e seu colega poeta, parecem decifrar o segredo de sua arte durante um passeio pela cidade um dia, quando percebem que têm liberdade para escalar ao invés de dar uma volta, um caminhão de vegetais que está bloqueando a pista à frente. Assim encorajados, eles continuam andando em linha reta pelo tempo que a cidade permitir.

Essa cena nos faz refletir sobre as grandes dificuldades de nos desfazemos dos preconceitos que nos são incutidos pela família, sociedade e a cultura histórica. Encaixotados e sugados pelos limites impostos em tudo e por todo; por que não, fazer diferente?

O pintor, professor e estudioso do processo criativo Rod Judkins propõe um exercício aos seus alunos na aclamada Central Saint Martins College of Art, que coincidentemente ou não, tem tudo a ver com a cena de Jodorowsky.

Ele pede que seus alunos com a ajuda de um copo façam um círculo num mapa. Eles deveriam seguir a linha sem desviar, e às vezes, com a dificuldade de carregar um sofá junto. “Outras coisas que fizeram incluem jogar futebol com três times ao mesmo tempo ou usar o mapa de Paris para guiá-los por Nova York” diz o professor.

Essa cena serve de lembrete de que muitas vezes vivemos de forma “automática” nas nossas rotinas e hábitos. É importante quebrá-los, criar novos para depois quebrar novamente. Sair da zona de conforto envolve lidar com medo e autoconfiança, mas garante aprendizado e crescimento.

gabriela
GABRIELA MANFREDINI é uma artista emergente, designer e ilustradora residente em São Paulo. Interessa-se pelo universo artístico desde criança. Seu trabalho é principalmente envolvido por temas como conexão, encontros e empatia.

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