Crítica semanal Daniel Levy de Alvarenga

Mirante do Pasmado

O que você prefere: ter uma opinião formada sobre tudo ou ser uma metamorfose ambulante?

Diariamente, na palma de nossas mãos,  recebemos uma quantidade quase infinita de informações que circulam com uma velocidade impressionante. Às vezes, nos vemos compartilhando estas informações sem ler todo o seu conteúdo. Outras vezes, temos o impulso comentar sem uma real reflexão a respeito do tema compartilhado. São as consequências da modernidade liquida criadora de diversos dilemas, dentre eles, o de ter rapidamente uma opinião formada sobre tudo. Mas como dizia Raul: “É chato chegar a um objetivo num instante”.

Recebi muitos destes compartilhamentos a respeito da notícia da construção de um memorial do Holocausto, no Mirante do Pasmado, na cidade do Rio de Janeiro. O assunto é quente e polêmico. Neste último sábado houve um ato de protesto contra o corte de árvores e a construção de um memorial no local.

Pessoas importantes no campo do patrimônio cultural escreveram sobre o tema, como a professora Sonia Rabello (1) e o professor Rafael Winter Ribeiro (2). As instituições públicas também divulgaram as suas notas oficiais (3).

Podemos olhar a respeito da possível construção de um memorial às vítimas do Holocausto no Mirante do Pasmado sob a perspectiva do conceito de “Lugar de Memória”.

Para Pierre Nora, os “lugares de memória” podem ser analisados sob três aspectos: são lugares materiais onde a memória social se fixa e pode ser percebida pelos sentidos; são lugares funcionais porque têm ou adquiriram a função de fundamentar memórias coletivas e são lugares simbólicos onde essa memória coletiva se expressa e se revela. São, portanto, lugares carregados de uma intencionalidade de memória (4).

A “Favela do Pasmado”, no Morro do Pasmado, começou a se formar no início dos anos 50 e logo em 1952 houve uma tentativa de remoção. Em 1963, a então Secretária dos Serviços Sociais da Guanabara, Sandra Cavalcante, atendendo às pressões em virtude do processo de migração das elites cariocas, decidiu remover os moradores do local. Esta tarefa foi facilitada pelo incêndio ocorrido em 24 de janeiro de 1964. O resultado final foi a remoção de todos os 3.991 moradores da “Favela do Pasmado” para diversos locais da cidade, como a Vila Kennedy e a Vila Aliança. A “Favela do Pasmado” não foi a primeira a ser removida na cidade. Os exemplos são muitos: Favela da Catacumba e a Ilha das Dragas, na Lagoa, a Favela da Macedo Sobrinho, no Humaitá e a Praia do Pinto, no Leblon.

Foto4

Portanto, o Mirante do Pasmado é um “lugar de memória”, símbolo das políticas de remoções arbitrárias ocorridas da cidade. E assim deveria ser reconhecido.

Não precisamos voltar muito no passado para buscar exemplos destas transferências populacionais compulsórias. O caso da Vila Autódromo, às margens da Lagoa de Jacarepaguá, ainda está bastante vivo. Tão vivo que a comunidade local criou em 2016, com apoio de profissionais da museologia, o Museu das Remoções, um museu territorial a céu aberto cuja a missão é “participar da luta contra as remoções, preservando a conexão simbólica, a memória emocional e as práticas sociais de comunidades removidas” (https://museudasremocoes.com/). Por que não utilizar o exemplo desta experiência para ocupar o espaço do Mirante do Pasmado?

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Nos grandes centros urbanos são frequentes as disputas pelos lugares de memória como meio para obter ou fortalecer uma determinada identidade coletiva. E parece evidente que o debate relacionado com a forma escolhida para a ocupação do espaço do Mirante do Pasmado é bastante revelador destas disputas. Afinal, se toda sociedade traz as marcas das estruturas sociais que lhe antecederam, a escolha daquilo que deve ou não ser objeto da memória torna-se um tema de grande importância.

Termino de escrever estas breves linhas, no meio de uma metamorfose ambulante, com mais dúvidas do que certezas. Querendo dizer agora o oposto do que eu disse antes…

* Recomendo a leitura do artigo de Júlio Bizarria: “O Morro do Pasmado e suas cidades virtuais: do Correio da Manhã à nova militância das favelas”, disponível em https://journals.openedition.org/pontourbe/2493. Também recomendo o documentário “Remoção”, dirigido e roteirizado por Anderson Quack e Luiz Antonio Pilar

  1. http://www.soniarabello.com.br/rio-pasmado-cessao-ilegal-area-publica/
  2. http://urbecarioca.com.br/2019/03/por-que-o-rio-de-janeiro-pode-perder-o-titulo-de-patrimonio-mundial-rafael-winter-ribeiro.html
  3. http://portal.iphan.gov.br/noticias/detalhes/5005?fbclid=IwAR0iU3BHH50x0vd22876NYSHFRwirOARcfXXLy4x2_RpYTle7J75e-w_2z8
  4. NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História. São Paulo, v.10, p.07-28, dez. 1993

 

Daniel Levy

Daniel Levy de Alvarenga  é formado em Direito e em História pela PUC-Rio. Mestre em História pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), linha de pesquisa “Patrimônio, Ensino de História e Historiografia”. Doutorando em Direito pela Universidade Autônoma de Lisboa (UAL), desenvolvendo pesquisas sobre patrimônio cultural material e imaterial.

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