Crítica semanal Vanessa Tangerini

JÁ ESTÁ FEITO, JÁ PEGOU FOGO, QUER QUE EU FAÇA O QUÊ?

Crítica Sábado 23-03

Ao ser questionado, durante a sua candidatura, sobre as propostas para a manutenção do patrimônio histórico no contexto do incêndio do Museu Nacional, o atual presidente do Brasil respondeu: “Já está feito, já pegou fogo, quer que faça o quê? O meu nome é Messias, mas eu não tenho como fazer milagre”.

A frase de Jair Bolsonaro, como um disparador de uma condena à morte, talvez ilustre um dos maiores desafios do Museu no seu processo de reconstrução: o político. Precisamos mais que nunca romper com o paradigma de museus do século 19. É necessário levantar das cinzas e reinventar-se como museu. E para isso não é preciso nenhum milagre, mas sim trabalho colaborativo, criatividade coletiva e memória combativa, coisas alheias ao pensamento fanático religioso.

No final de fevereiro, no Rio de Janeiro, o CCBB inaugurou a exposição Arqueologia do Resgate Museu Nacional Vive, na qual se exibem mais de 100 obras resgatadas dos escombros. Desde o trágico episodio, a equipe do Museu vem realizando atividades que confirmam e enfatizam que o Museu Nacional permanece vivo e ativo, tal como afirma o slogan da sua campanha.

De certo modo, essa vitalidade é oposta à lógica operativa de uma agenda política que procura desvincular a cultura dos povos e os povos da memória. Resgatar das cinzas é também procurar sentido em aquilo que parece não ter-lo: a morte como finitude. Procurar sentido no finito é também gerar vínculos com o vivo, reconhecer-se no outro para não esquecer. Talvez seja esta a razão pela qual conectei o Museu Nacional com o Museu Gallardo (Rosário, Argentina), que sofreu um incêndio no ano 2003 perdendo grande parte da sua coleção.

O museu de ciências naturais argentino reinaugurou em uma nova sede, mas também se reinventou apostando em uma museologia crítica que questiona o próprio aparato museológico. Com narrativas descentralizadas e a inclusão de novas perspectivas (de gênero, ameríndia, agroecológica, etc.), o museu passou de estar centrado nos objetos para centrar-se nos visitantes, buscando que saiam com mais perguntas que respostas e estimulando, dessa forma, um pensamento crítico.

No contexto atual, com sistemáticos cortes na cultura e no qual as relações entre os países da América Latina estão sendo derrubadas pelos interesses econômicos das elites, resultaria significativo que duas instituições culturais de países irmãos se vinculassem através de uma historia em comum, da qual pudesse surgir uma colaboração e uma identificação.

Bem poderia ser que das cinzas surgissem novas vidas para aquilo que o atual presidente condenou morto. A capacidade de converter uma morte em memória viva, talvez seja a maior força dos museus no contexto político atual.

 

Vanessa Tangerini
Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação.

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