Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

O país fora do ar

É preta e brilha. À medida que nos aproximamos da escultura suspensa na parede como uma tela, a superfície cintila como negrume precioso. Não conhecemos o valor do brilho, se irônico ou sério, é como se ele estranhasse o luto, comentando-o, ou incrustasse toda a superfície da imagem com estrelas, capitais dos estados inumeráveis. Cada brilho, uma capital, mas de onde?

Tudo o mais pesa como um enigma cansado de seus símbolos. Não há lema algum, e o retângulo inscreve o losango, o círculo, como símbolos de uma maçonaria macabra. A bandeira endurecida já não tremula sobre território nenhum nem se alça acima dos corpos avisando do vento que percorre um país. Não está a meio mastro pois foi feita para o olhar fixo, espantado, à altura da cabeça de quem entra na sala de exposição e a partir daí começa, diante dela, a desfazer o país.

Ou desfazer o país imaginado, pois se trata de uma bandeira literal. Ela é feita de matéria territorial, da matéria imposta ao território: é uma bandeira de asfalto. O chão das máquinas depurado – triturado, peneirado, esculpido – acumula-se num castelo de areia fixado pelo espanto, um país forrado por matéria morta, moderna e infértil. A bandeira deserta do deserto de asfalto, onde em se plantando nada dá, onde apenas pode nascer uma flor cujo “nome não está nos livros”.

É uma bandeira bandeirante. Porque essa bandeira foi produzida com o asfalto que cobre a Aldeia Maracanã e vem sendo progressivamente retirado pelos indígenas e pelas pessoas que militam no local, a exemplo de Regina de Paula. Regina, que é professora do Instituto de Artes da UERJ, vizinha à Aldeia, trabalhou na extração da matéria moderna que impede o reflorestamento e a agricultura no terreno, dando a ver, na Bandeira, o Brasil lutuoso que há no asfaltamento e o quanto de bandeirismo há e continua a haver no discurso nacional-desenvolvimentista para o país.

O resultado, apesar disso, é ambíguo. Porque é necessário retirar um Brasil inteiro de cada território indígena encoberto, é necessário igualmente atravessar o luto escavando, exumando. Desistindo daquilo que não chegou a se cumprir. O que restou foi pedra sobre terra, melancolia sobre ecologia. O brilho da bandeira de Regina de Paula para o Brasil provém do petróleo. Óleo de pedra. Luxo do luto, a dispersão do brilho também indica, como nos mitos indígenas, cada um que, morto, virou estrela.

Fotografia por Tania Bonin da obra de Regina de Paula exposta em Impávido Colosso, sob curadoria de Bianca Madruga, Jessica Di Chiara, Leticia Tandeta Tartarotti e Pollyana Quintella, que aconteceu no espaço A MESA, em 23 de fevereiro de 2019.

 

Luiz Guilherme
Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio.

 

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