Crítica semanal Ombela Assumpção

O revisionismo historiográfico das narrativas recalcadas

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“Se você considera que toda a vida humana saiu da África, do Jardim do Éden e tudo mais, faz sentido pintar Deus como uma mulher negra”. Harmonia Rosales

Lélia Gonzalez, uma das grandes intelectuais do século XX, ao olhar para a situação dos negros e indígenas no continente Americano e perceber que esses são alvo constante da construção histórica colonial, propõe uma perspectiva que os coloque no centro da história. Considerando que os povos africanos e originários também já haviam tecido um contato anterior à invasão europeia por essas terras, a antropóloga implode algumas categorias de base implantadas pela perspectiva ocidental e, a partir disso, funda o conceito de amefricanidade.

Améfrica Ladina é o nome dado por Lélia a este continente que, em sua maior parte, é habitado por pessoas de descendência  africana e indígena, essa reapropriação projeta para o centro a perspectiva decolonial. E… por falar em outras narrativas, me deparei recentemente com imagens de algumas obras da artista ladina amefricana Harmonia Rosales. A produção de Harmonia é, em grande parte, elaborada a partir de referências do renascimento europeu, a artista explora visualmente a potência que reside na estética negra protagonizada pela mulher.

O século XV e XVI, diga-se de passagem, marco de grandes transformações catastróficas para alguns e muito benéfica para outros, como bem sabemos, tem uma grande carga histórica no que diz respeito as relações étnico raciais entre africanos, indígenas e europeus. Não é à toa que Harmonia se referencia exatamente a esse momento no sentido de realocar e questionar imagens hegemônicas. Além disso, uma questão teórica a ser abordada é: a relação entre a inauguração do conceito de Arte (tal como conhecemos hoje) e o lugar de outras abordagens estéticas dentro da história da arte.

Uma crítica possível dentro desse contexto seria: não estaria Harmonia literalmente pintando de preto aquilo que é branco? Caso essa questão seja colocada, a mesma lógica deve ser aplicada,  para que se questione,  todas as apropriações de tudo aquilo que foi produzido pela cultura do povo preto e foi pintado de branco como é o caso da filosofia, do jazz,  da imagem de Yeshua (mais conhecido como Jesus Cristo) ou até mesmo as apropriações de Picasso das máscaras africanas, para não citar outros roubos como expõe o artista Baco Exu do Blues em Bluesman (2018).

A grande quantidade de informações recalcadas pelo processo de epistemicídio, agora vem à tona com o acesso à internet que, mesmo com todos os seus problemas, proporcionou uma democratização no acesso as fontes. Claro que, ao perceber o movimento revisionista em camadas da população que não tiveram sua história devidamente colocada, algumas reações são geradas. É o caso da exposição Revealing the african presence in renaissance Europe (No Walters Art Museum em 2012) possivelmente, em um primeiro olhar, pode parecer uma proposta muito bem vinda, olhando novamente, notamos que sua narrativa parte de uma mera necessidade em tapar buracos da história ocidental. As imagens expostas, além de reproduzir de uma forma velada o discurso de democracia racial, ainda enaltecem uma perspectiva que prioriza a leitura de que a história africana é uma história de servidão e que a Europa é fruto de uma coletânea de milagres. Já que a intenção é abordar a presença africana na Europa…

… por que não falar dos mouros?

Ombela

 

 

Ombela Assumpção é pesquisadore afroindígena independente e graduande em História da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

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