Crítica semanal Gabriela Manfredini

Falsificação e participação

Luis Camnitzer é um artista e professor uruguaio que trabalha principalmente com o tema da educação e transformação social. “O museu é uma escola” é sua máxima. O museu Reina Sofia, em Madrid na Espanha fez uma retrospectiva dos quase sessenta anos de trabalho do artista. A exposição se chama “Hospício de utopias falidas” e encerrou no dia 4 deste mês.

Como um ato de encerramento do programa Escola Perturbável, que foi realizado em paralelo com a exposição, o artista defendeu sua tese de doutorado Especulações e desvios diante do dilema apresentado por uma “Falsificação Original”.

Nesta ocasião, seu trabalho reflete sobre os conceitos de original e autoria. Em 1971, Luis Camnitzer começou a vender sua assinatura por centímetro com base no fato de que no sistema capitalista é a assinatura do artista que valoriza a obra de arte. Com a venda direta da assinatura do artista, ele elimina “o tédio e os custos necessários para a produção da obra e operação de mercado”. Como ponto de partida para a realização de Falsificação original, o artista envia uma versão fac-similar da sua assinatura por e-mail a onze estudantes de arte para que eles possam recriá-la da maneira que quiserem.

Alguma das questões que ele propõe são:

  • Camnitzer está abandonando seu ego em favor dos estudantes ou está tentando se auto promover?
  • Ele tem algum direito de reclamação depois de ver a obra pronta, caso não lhe agrade?
  • A obra realizada pelos estudantes pertence a eles próprios ou ao Camnitzer?
  • Camnitzer está explorando os estudantes para que façam o que ele pede ou os está deixando livres para criarem o que quiserem?

Também pode-se questionar que muitas vezes objetos de arte ganham status apenas por terem a assinatura do artista “famoso” mesmo sem terem grandes qualidades. O prestígio de um artista se torna maior que a obra em si. Camnitzer nos faz refletir sobre o monopólio da criatividade pelos ditos “profissionais” deixando pouca credibilidade para os “comuns”.

Para ele, a arte não é sinônimo do objeto de arte, destinado a venda; a arte é uma forma de pensar e tem o objetivo de mudar a sociedade na qual está inserida. Aliás, poucos artistas conseguem se sustentar com a venda de objetos de arte. Todos gostariam de vender o máximo de trabalhos possível, mas é muito mais comum os artistas sustentarem suas vidas independentemente de suas relações com galerias – se tiverem alguma. Diversificar os fluxos de renda é essencial, e a maioria dos artistas “bem-sucedidos” faz isso muito bem. As vendas das galerias quase sempre ficam no final da lista.

As questões trazidas com a obra-tese de doutoramento estão envolvidas também na arte participativa e suas problemáticas, onde o artista é entendido menos como um produtor individual de objetos discretos e mais como um colaborador e produtor de situações. A prática artística está cercada de armadilhas se formos considerar as implicações políticas e éticas envolvidas e é exatamente este o ponto que Camnitzer quer discutir.

 

gabriela

 

GABRIELA MANFREDINI é uma artista emergente, designer e ilustradora residente em São Paulo. Interessa-se pelo universo artístico desde criança. Seu trabalho é principalmente envolvido por temas como conexão, encontros e empatia.

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