Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

Brasil, 1964-1888

NEOARTE - Soluções Fotográficas para o Mercado de Arte / www.neoarte.net

Verifique se o mesmo lê o desejo político do lulismo como cópia, assim como o desejo dos donos do poder. Entre 2003 e 2016 ampliaram-se universidades, escolas técnicas e o assassinato de pessoas negras, e nesse século o Brasil é o país que até agora mais desmatou florestas no planeta. Seria necessário que as ações do Estado empreendessem uma crítica radical à democracia racial. “Obviamente não era possível que estivéssemos indo a algum lugar se matávamos […] ou deixávamos que se matassem”.[1] A crise política (o impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro) representou o realinhamento do desejo dos donos do poder, que reconheceram no lulismo um modo de ser muito semelhante e, por isso, imperdoável: “A atribuição de culpa, geral e irrestrita, seria, nessa leitura, o passo inevitável, e o resultado do processo, uma diferenciação radical, vizinha à violência, entre o que parecia semelhante”.

A crise de representação na política, manifesta, por exemplo, na crença em falsas representações como as fake news, acompanha outra crise, nas artes, quanto à autonomia política das obras, manifesta, por exemplo, no fechamento, em 2017, da exposição Queermuseu pelo Santander Cultural (a remontagem da exposição no Rio de Janeiro, em 2018, no Parque Lage, por financiamento coletivo é o avesso que confirma o argumento). Alguma coisa está mudando no “ciclo-labirinto de Moebius”, que, para Nuno Ramos, marca a cultura brasileira. O “palácio de Moebius” erigido pelas poéticas da modernidade foram uma espécie de “foda-se” em nome de uma linguagem que elevasse a cultura. Hoje, no entanto, sem o elevador, o “poço” aparece quando a porta se abre: “Verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar”.

As interpretações que Nuno Ramos apresenta de João Gilberto, Lygia Clark, Graciliano Ramos, Mira Schendel, Glauber Rocha, Caetano Veloso e Tunga, na primeira parte do livro, formam uma teoria da cultura brasileira buscando compreender a metamorfose do “palácio” em “poço”. Um trabalho de Lygia Clark, por exemplo, Caminhando (1962), é capa do livro e momento-chave da argumentação: recortar, com uma tesoura, uma fita de Moebius de papel, o fio do corte percorrendo paralelamente os limites da fita, resultaria, no limite, numa fita do tamanho do mundo. Porém, nessa obra, também o mundo inteiro está colocado na fita de Moebius, revertendo a direção do processo e trazendo para o “palácio” o que está fora. Esse “retorno” para “dentro” da obra dá a dimensão do palácio-labirinto das artes de onde não se sai e onde se deseja guardar o mundo num mundo que o despreza.

“Com qual sussurro, em que tom de voz (insinuante? formal? violento?), o mesmo vai repetindo seu nome e drenando, como uma doença sem sintoma, o circuito sem fim daquele anel?” Questões como essa tornam o ensaio de Nuno Ramos, o livro dentro do livro composto pela introdução e a primeira parte, uma inquirição sobre o Brasil formulada por uma voz coletiva que vem perdendo o palácio fundamental. Mas gostaria de comparar esse lugar de enunciação com o de outras coletividades, ou do que se poderia designar poéticas diaspóricas. Penso, por exemplo, nessa obra de Jaime Lauriano, experiência concreta #2 (diálogo de mãos) (2017), espécie de bólide dos materiais encontrados entre a Casa Grande & a senzala. A série de 8 como borboletas guardadas na caixa do colecionador altera o título, formado por duas palavras muito caras às poéticas das vanguardas. Intriga como se desenha a fita de Moebius aprisionando o outro, o mesmo.

A imagem parece comentar Verifique se o mesmo refazendo as temporalidades e convidando o olhar a recuar no tempo: o palácio infinito de Moebius, contemporâneo a um processo de democratização e, logo depois, de suspensão dos direitos democráticos entre as décadas de 1960 e 1980, é construído à imagem e semelhança do poder de aprisionar o outro. Como sugere o texto de Nuno Ramos, não parece mais possível ligar o foda-se em nome do infinito. Estamos caminhando entre duas datas. Se hoje repudiamos 1964, é rumo a 1888, e seu looping de Moebius, que caminhamos.

(Fonte da imagem: https://pt.jaimelauriano.com/experiencia-concreta.)

[1] As citações provêm da introdução a Verifique se o mesmo (São Paulo: Todavia, 2019), de Nuno Ramos.

 

 

Luiz Guilherme
Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio.

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s