Crítica semanal Ombela Assumpção

Pra não dizer que não falei de utopia

Mikay - Arissana

“[…] Vejo agora um novo momento, pois temos um número grande escritores, artistas e cineastas indígenas que estão contando a “história” de outro ponto de vista”.

Arissana Pataxó

Arissana Pataxó, em uma crítica muito direta a violência vivida no espaço urbano como um corpo indígena, cria em 2009 a escultura “Mikay”. Em entrevista a uma revista em 2016, a artista pontua a estranheza em não se enquadrar nquilo que projetam sobre a sua imagem enquanto mulher pataxó: “Cada pessoa tem um índio fictício na cabeça. Essa imagem é construída pelos livros de literatura, pelas escolas, pela mídia. Mas nós somos um povo que vive na floresta e também na cidade”.

Além da mensagem direta de denuncia à prática de um estrangeirismo indígena, que vai desde a noção de que aqueles que saíram do contexto da aldeia devem apresentar “trejeitos primitivos” até a valorização de que tendo essa expectativa sida quebrada essa pessoa merece fazer parte do “mundo civilizado”, a reprodução do discurso colonial tem como efeito uma profunda exotização desses corpos dentro de seu próprio território. A obra ainda trás uma crítica à própria história da arte, dentro da classe de objetos tão caros à assassina disciplina da antropologia, a expressão “arte primitiva” batizou; flexas, escudos, máscaras,  pinturas corporais, cestos, grafismos… e a tão estimada cerâmica.

A cerâmica de diversos povos indígenas, como já sabemos foi uma das classes de peças mais exaustivamente catalogada e ainda hoje exposta em museus. É importante ressaltar, que na maioria das vezes são essas instituições contribuem profundamente para a formação de um olhar etnocêntrico, dentro do ambiente cultural do país. Isso que faz com que, ao ver uma pessoa indígena no meio urbano, alguns fiquem indignados com a ausência de elementos que sustente um repertório visual estereotipado que remeta ao século XVI, seja nas pinturas de Rugendas, seja nos objetos roubados em museus etnográficos.

Além de evidenciar a saga cotidiana do enfrentamento com exotização enquanto um corpo indígena, a obra “Mikay” não é nada mais nada menos que uma escultura de cerâmica. O facão, que remete também a uma estética daqueles usados pelos bandeirantes, possuí 60 centímetros de comprimento mas sua dimensão simbólica extrapola qualquer mensuração, para além de transbordar as camadas conceituais que direciona aquilo que cerca o estudo da “arte indígena”. Apesar de toda fruição, que como cipó tece o emaranhado conceitual da obra, a própria Arissana se demonstra muito tranquila quando o assunto é definir critérios metodológicos.

Ao ser questionada¹ sobre o uso do conceito de “Arte indígena” como um índice da construção ocidental a ser considerado, a artista se posiciona de modo a não desmerecer ou criar hierarquias. E ainda afirma, que independente de conceitos genéricos o que merece destaque é dentro do que se pretendeu categorizar da cultura material indígena “há uma infinidade de práticas e expressões diferentes desenvolvidas por diferentes povos”. Quanto ao mercado de arte, diz perceber que há uma segregação entre aqueles que já pertencem ao circuito e os que nele buscam se inserir, apesar disso reconhece que nos últimos anos os museus tem se atualizado em relação as questões contemporâneas promovidas por artistas indígenas.

Arissana é mais uma dessa série de artistas contemporâneas necessárias que em muito tem contribuído, para que um novo rumo seja dado nessa história. Por isso, convido todes a descatequizar, não só o olhar mas os sentidos sobre os povos originários dessa terra, buscando uma narrativa protagonizada por eles, seja nas artes plásticas, na literatura, na música, nas artes cênicas, no cinema ou nas mídias digitais. O que importa é fazer com que a voz que ecoa dessa nova construção histórica seja mais alta que o gatilho que contra ela dispara.

  1. Entrevista realizada em 2018 por Renato Mendonça, pesquisador e estudante de história da arte (EBA/UFRJ).

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Ombela Assumpção é pesquisadore afroindígena independente e graduande em História da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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