Crítica semanal Vanessa Tangerini

Em busca da memória, da verdade e da justiça

Para fazer eco do que já foi dito (porque o eco, ao permanecer no espaço é, talvez, uma forma de memória), retomo as palavras de Daniel Levy de Alvarenga em sua última crítica: “Uma ditadura não se comemora. Se lembra, para que nunca mais aconteça.”

No último dia 24 de março a Argentina “comemorava” o dia nacional da memória pela verdade e pela justiça. Nesta ocasião, milhares de pessoas ocuparam as ruas em razão dos 43 anos do último golpe de estado no país. Desde o ano 2002 o aniversário do golpe cívico-militar de ‘76 se transformou, oficialmente, em dia de memória e luta convertendo-se, três anos depois, em feriado nacional argentino.

Paradoxalmente, na mesma semana as redes sociais bombardeavam notícias (entre fakes e “true” news) sobre o fato do nosso atual presidente querer comemorar os 55 anos do golpe de ‘64. Dentre as notícias verdadeiras (ainda que difíceis de crer), figuram a de um vídeo divulgado em um canal de comunicação do Planalto que nega o golpe de ’64 e uma missa em celebração ao golpe, realizada no dia 31 de março, que contou com a presença de familiares do coronel Ustra (aquele alagado por Bolsonaro).

O aniversário do golpe de ‘64 no Brasil, ao cair no dia 1º de abril, coincide com o dia da mentira. Coincidência irônica, porém significativa, já que ao invés de propor um dia da memória pela verdade, o atual governo parece mais interessado em converter-lo em um dia pela “memória da mentira”: a mentira de uma “revolução” que o seu discurso tenta impor, a negação da ditadura cívico-militar. Entretanto, a coincidência não parece cair-lhes mal, afinal uma data popularmente conhecida como o dia de espalhar boatos resulta coerente com o programa de um governo que se baseia em fake news.

Com esse modus operandi, que busca defender uma “outra verdade” que legitima os opressores e a tortura, relativizam o que não deveria ser relativizado: a verdade como reivindicação da justiça, como reparação. As ditaduras militares latino-americanas foram processos onde os estados, que deveriam proteger e garantir o bem estar da população, usaram as forças armadas contra ela. Nesse sentido, a idéia de celebrar o golpe, ou negar-lo, é insustentável à luz dos desaparecidos, assassinados, torturados e empobrecidos pelas ditaduras. Que classe de memória propõe construir uma mentira que celebra o sangue frio?

Um dos maiores perigos desse discurso de mentiras e negações talvez seja a facilidade com que ele é assimilado e, portanto, repetido. A isso devemos somar o infeliz fato de que estamos vivendo um governo que, quando questionado sobre seu acionar, evade dar respostas, dando como encerrados assuntos que são urgentes. Diante desse contexto, precisamos mais que nunca seguir em busca da memória pela verdade e pela justiça.

Devemos lembrar, mas essa lembrança precisa ser transformada em memória combativa, em luta. Que os nossos ecos não sejam apenas para que não volte a passar, mas também para poder reivindicar a memória e a justiça das suas vítimas. Porque, como afirma Estela de Carlotto (presidente da Associação Avós da Praça de Maio), a ferida somente sana com a verdade.

*Imagem: Passeata em favor das Diretas Já, em 26 de abril de 1984, onde manifestantes usavam a frase “Amanhã vai ser outro dia” da música “Apesar de você” de Chico Buarque.

 

Vanessa Tangerini
Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s