Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

Manifesto contratextual

É no campo das textualidades e da escrita ampliada que trabalha Tertuliana Lustosa.

Em maio de 2018, publicou no blog Outra Literatura uma versão digital do cordel Sertransneja, assinado pelo coletivo Xica Manicongo e com textos de Matheus Passareli (capa), Tertuliana Lustosa (capa, um poema e outro poema em parceria), Lidi Oliveira (um poema) e Wescla Vasconcelos (um poema em parceria).

A capa do livreto digital apresenta a reprodução de uma xilogravura com a figura de uma baiana, uma mulher vestida com saia larga, ostentando um estandarte, no alto à esquerda, onde se lê “SER / TRANS / NEJA”, sob um grande sol desenhado no alto à direita. O procedimento de inoculação do termo “trans” na segunda sílaba do vocábulo “sertaneja”, que de qualquer maneira já guarda, nos seus grafemas, um anagrama do termo, cria uma palavra-valise perturbadora para o estereótipo do “cabra da peste”, que agora precisa lidar com a “trava da peste”.[1]

Perturbação semelhante à produzida pela imagem que identifica o blog Outra Literatura, abre e encerra o ensaio “A lenda da trava leiteira” e está tatuada no corpo de Tertuliana: os dois seios amalgamados numa zona de interseção remetem à imagem da fita de Moebius, que encerra de porteira aberta o principal texto sertanejo na cultura brasileira, o romance Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

Em ambos os textos algum procedimento paródico é convocado, transgredindo em maior ou menor grau os sentidos e as possibilidades de sentido estabelecidos na cultura ou na gramática.

O poema assinado por Tertuliana em Sertransneja é caracterizado como um “cordel”, mas não apresenta a forma rimada nem metrificada, aproximando-se em vez disso de outras práticas de produção poética contemporâneas, como textos que narram o cotidiano que conforma e altera as identidades de quem escreve, típicos de rede social. O poema de Tertuliana Lustosa narra, em tom de conversa ou confissão, a troca de cartas entre a poeta, definindo-se na carta/no poema como travesti, e a mãe, convidando a filha à poesia. A jura da poeta em seguir cantando casa-se com a consciência de “ser coletivamente”, um modo de ser que, implicado no texto, torna a sua autoria complexa.

A SERTRANSNEJA NA CIDADE MARAVILHOSA

(A Marcia Mascarenhas)

Na cidade maravilha

A carta de mainha me chegou

O meu boi morreu

que será de mim?

manda buscar outro, mainha

lá no Piauí

Eu respondi a carta e nela disse pra mainha

Que eu era travesti

Ela chorou noite e dia

Lá na roça do Piauí

Foi então que me acalentou

“Filha, eu sempre estarei com você aqui”

Já que somos nordestinas

Já que sou mulher cabeça de cuia

Te respeito trans e correntina

Do meu povo do mato tapuia

Mas toca tua vida com cordel e poesia

Seu talento verdadeiro… me jura!

Eu jurei e fiz valer

Hoje não caço preá

nem cato mais pequi

não parto de carona pro Ceará

Mas resisto aqui fazendo poesia

Sobre ser coletivamente e sempre lutar

E sigo cantando

Na Feira de São Cristóvão

“O meu boi morreu

que será de mim?

manda buscar outro, mainha

lá no Piauí”[2]

O poema não deve ser lido desconsiderando-se o seu contexto de publicação e circulação. A força do poema de Tertuliana Lustosa, encerrado com a cantilena que convoca a mãe, encontra-se no eixo móvel entre texto e autoria, que, dobrados um sobre o outro, fazem desse texto um acontecimento transgênero que investiga a relação entre mãe e filha, e entre família e cultura sertaneja, na interseção ou mesmo indeterminação entre relação social privada e relações sociais públicas. Seu trabalho, como afirmou em entrevista para Lola Ferreira, consiste em “repensar a cultura nordestina”.

(Fonte da imagem: https://portalseer.ufba.br/index.php/revistaperiodicus/article/view/23826)

[1] FERREIRA, Lola. Tertuliana Lustosa: A ‘sertransneja’ que ocupa a sala de aula como um ato político. HuffPost Brasil, 26 jun 2018. Disponível em:

https://www.huffpostbrasil.com/2018/06/25/tertuliana-lustosa-a-sertransneja-que-ocupa-a-sala-de-aula-como-um-ato-politico_a_23467710. Acesso em: 29 jan 2019.

[2] XICA MANICONGO. Sertransneja. Rio de Janeiro: Coletivo Xica Manicongo, 2018. Disponível em:

http://outraliteratura.com.br/wp-content/uploads/2018/05/cordel-SERTRANSNEJA.pdf. Acesso em: 29 jan 2019.

 

Luiz Guilherme
Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio.

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