Crítica semanal Ombela Assumpção

Ingenuidade ou intuição?

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“Circula na minha mente que eu tenho que registrar isso para deixar escrito as memórias passadas, o que não existe mais.”

Duhigó

Os povos tukano ao longo da história têm sofrido grandes perdas culturais, a força de seus valores e mitos foram se diluindo devido a intervenção violenta do Estado brasileiro e colombiano em seus territórios. Duhigó, primeira artista indígena à participar da Bienal Naifs do Brasil, traz a tona mirações de um passado já inexistente com a obra “Maloca Tuyuka”. Os Tuyuka, filhos da cobra de pedra, fazem parte do tronco linguístico Tukano. É através de imagens como essa que a história indígena tem conseguido reivindicar uma visualidade que preserve suas origens, tradições e símbolos, já que a educação oferecida pelo Estado não se preocupa em desconstruir o imaginário mítico e crenças estereotipadas sobre o que é ser um povo indígena.

As malocas – importante elemento da cultura material tukano – eram entendidas como um corpo vivo, o veículo de ligação entre o visível e invisível. Hoje, como questiona Gabriel Gentil – kumutukano-, as malocas não mais desenvolvem seu potencial simbólico, posto que ao longo da história os povos tukano foram perdendo seus rituais, costumes e valores que transformavam a maloca em algo além de uma construção. O ato de construir a maloca era considerado irrisório para os tukano, atividade geralmente exercida pelos índios da etnia maku. Contudo, depois de construída versava por rituais que a tornava mais que uma construção. A arquitetura é também o próprio corpo, representa-la não é um ato de ingenuidade, a maloca é um organismo vivo e consagrado.

Essa casa comunal enquanto parte do cotidiano desempenha a função de abrigo e templo, em termos ocidentais, é nesse espaço-corpo que residem os objetos ritualísticos e sagrados como o tambor troncano, que na acepção tukano representa o coração da maloca e a viga que representa a espinha dorsal do Criador Õ’ãkhë.

O território é um componente elementar para a constituição de qualquer sociedade humana. Para esses povos além de desempenhar esse papel, a terra onde vivem é a própria estrutura corpórea da Deusa Yepá – o equivalente na cultura ocidental à mãe Terra. Portanto, a carga espiritual que representa o seu território, quando alterada não se reconstitui. Por esse motivo a cultura dessa etnia, como de tantas outras, vem se enfraquecendo no movimento da globalização. Desse modo as malocas têm sofrido uma constante descaracterização simbólica da mesma forma que a ayahuasca, patrimônio cultural que tem sido descaracterizado pela globalização, como explica a artista Daiara Tukano.

A moloca percebida em sua totalidade é reflexo da vivencia de lógica onde não existe a dicotomia do público e do privado. Um ambiente que abriga a todos e apresenta diversas funções para além de habitação, como: centro ritualístico, político e cultural. A ausência de paredes e portas que divide os espaços e a preservação do chão de terra constituem uma fisicalidade a qual não pertencemos e que traduz aspectos culturais desse povo. A arte produzida pelos povos originários desta terra devem ter o direito de poder ser lida de um modo crítico não despropositado e consciente.

Enaltecer memória de tradições materiais e imateriais que se perderam como as malocas e os objetos que nela caracterizavam seu simbolismo é resgatar os conteúdos que fazem parte da história da arte brasileira e reconhecer as atrocidades cometidas em nossa terra. Como pontua Gabriel Gentil ainda que haja um esforço para buscar compreender sua cultura, o homem ocidental não adentra a esfera necessária para vivência dos mitos. Portanto, é papel da história da arte  facilitar que essa dimensão venha, mesmo que minimamente, à tona na apreensão dos objetos que desejamos deslocar, considerando nossa relação com o corpo e sua presença na simbologia do espaço.

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Ombela Assumpção é pesquisadore afroindígena independente e graduande em História da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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